segunda-feira, 10 de agosto de 2015

OS MESTRES DO TAO



OS MESTRES DO TAO

Estava sentado sob a sombra de uma bela árvore, esperando a força do sol decair, aproveitando seu tempo em meditação. Foi quando viu aquele homem todo de preto caminhando em sua direção. Parecia estar falando sozinho. Ou, era algum tipo de meditação ocidental? Sim, o homem era ocidental, pelo que já tinha estudado sobre eles.
_Sempre quis conhece-lo. Nossos pensamentos são parecidos. Me chamo Aleister.
_Parecidos? Os pensamentos  que tentei disseminar, acredito eu, não deve existir algo que se pareça. Nem mesmo os ensinamentos de Jesus ou Maomé. Meu nome é Sidarta. Acredito na evolução da consciência humana. O que você conheceu, sempre será diferente do que vi. Nada permanece, nem mesmo doutrinas antigas. Eu vim e mudei doutrinas. Então, vieram pessoas e criaram doutrinas sobre aquilo que falei.
_Justamente. Todos devem seguir o próprio rumo e fazer o que quer.
_Porém, devem se livrar da ignorância que os prende ao mundo.
_Discordo. O mundo faz parte daquilo que somos. Portanto, devemos desfruta-lo ao máximo.
_Nem sempre o desfrute te levará ao conhecimento. Estarás preso aos vícios.
_Mas o vício é saborear todas as coisas de uma forma integral. Você saboreia apenas o mundo interior. Eu saboreio o externo em sua máxima amplitude. As pessoas do mundo moderno me seguem. Sou o profeta da nove era. Faça o que queres, pois, é tudo da lei.
_Estava ouvindo a conversa dos dois e não me contive. Já ouvi falar de você Crowley, e na Índia, estudei muito o Budismo. Mas como tudo passa. Hoje existe uma forte tendência da humanidade em se livrar de dogmas, de bandeiras, de raças, de rótulos, de pensamentos já pensados e ultrapassados.
_Não é bem assim - falou Jesus, também entrando na conversa - o Cristianismo ainda impera no Ocidente e se espalha pelo Oriente.
_Como o Budismo continua no Oriente e se espalha no Ocidente - falou Sidarta.
_O único lugar que continua fiel às raízes, estão os povos do deserto, que seguem minha doutrina - falou Mohamed, que também tinha acabado de chegar.
_Seus seguidores só pensam em guerras e bombas - falou Jesus.
_Como se os seus fossem santos - retrucou Mohamed - disfarçam seu ódio criando pseudo terroristas para, ainda, lucrar com o petróleo alheio. Sem contar os anos passados em perseguições pelas Cruzadas, pelas fogueiras e outras diabruras do seu clero.
_Senhores, acalmem-se. Todas as religiões tem um cisma. Uma pseudo ideia deturpada pelo tempo. Vejo isso no Budismo. O quanto se modificou no tempo.
_Meus ensinamentos sobre telema não sofreram a ação do tempo - falou Crowley.
_Seus ensinamentos levaram os jovens à rebeldia hippie, que acabou sendo usada como arma pelo governo. Se rebelaram e criaram uma nova forma de expressão. Porém, sexo, drogas e rock'n roll, não levou a humanidade para lugar algum. Talvez, piorou ao invés de melhorar. É tempo de transformar o mundo em algo novo - disse Osho.
_Você também veio. Falou. Pregou suas ideias. De nada adiantou. A humanidade continua errando e persistindo em seus erros - falou Crowley.
_Sim. Sidarta veio e a humanidade pouco mudou. Jesus veio e aconteceu a mesma coisa. Mohamed veio e, de forma semelhante,  continuaram iguais. Aleister Crowley veio com ideias totalmente diferentes do que todos acreditavam. Houve grande mudanças de comportamento e emocional. 
Quando vim, tentei mudar a mente humana, tal como Buda. Andei pelo mundo falando sobre mudanças internas, como Jesus. Falei sobre fazer a vontade em seu momento certo e de se livrar de antigas prisões mentais. Mas vejo que talvez, a humanidade não necessita mais de grandes mentes, de Messias, de profetas. Talvez,  necessite apenas acordar o que dorme dentro de cada um. E cada um fazer sua trajetória como um todo. Onde, somos uma gota num oceano que necessita ser lembrada que não é apenas uma gota, mas, um oceano inteiro. Onde ninguém é diferente. Onde os espíritos formam apenas uma mente. A mente do antigo Adão. Lembrar que as diferenças que vemos no mundo que enxergamos, são apenas, pensamentos, emoções e manifestações daquilo que nos torna o Ser, humano. A consciência coletiva que abrange o tudo e o nada a que nos prendemos num delicioso saborear do Tao - terminou Osho.
Então, cadas mestre foi por um caminho. Esperando a humanidade acordar...
Pobres Mestres!!!

Elder Prior

sábado, 27 de setembro de 2014

PAIXÕES E VERDADES



                                            



                                                     PAIXÕES E VERDADES


      _ A pulsação parou, doutor!
     _Tente massagem cardíaca, e depois, choque!
     _ Sinto muito doutor, mas acho que já é tarde!
     _ Tente! Tente!
     Enquanto na sala médica os médicos e enfermeiros tentavam dar vida novamente ao corpo inerte, Doutor Tomás via uma grande luz em sua frente, uma luz que cegava e que aos poucos ia diminuindo para se poder ver um túnel. Nitidamente era um túnel muito branco, com uma luz bem própria, jamais sentida por Doutor Tomás. Olhou para cima e não viu bocais de lâmpadas ou luminárias embutidas, mas a luz estava ali, clareando com uma luz que, ao invés de transmitir calor, dava uma paz suave e aconchegante.
   Doutor Tomás continuou andando até chegar numa porta. Na realidade era um portão com abertura para os dois lados. O lado direito da porta estava aberto e na entrada havia um senhor de poucos cabelos sentado numa mesinha com alguns papéis na mão. Apesar dos poucos cabelos e o tom grisalho, tinha um olhar jovial e transmitia um enorme carinho pelo recém chegado.
   _Onde estou? Eu morri?- perguntou Doutor Tomás, mais com medo do sim do que do não.
     _Ainda não, mas está quase no momento de você escolher o que realmente quer. Precisa responder o formulário e entrar na sala. Na sala você deve aguardar ser chamado. Por favor, me responda se seus dados estão corretos.
    _Seu nome é Tomás Silva Santos, nascido em 13 de novembro, Escorpião, idade 73 anos, casado e divorciado, quatro filhos, advogado. Certo?
    _Só gostaria de corrigir os filhos que são dois. E gostaria de saber o que tem a ver o signo. Eu não acredito neste negócio de signo.
   _Seu Tomás, aqui está escrito quatro filhos. Dois com a esposa. Um com sua empregada, que você demitiu depois que ela apareceu grávida e outro é de uma mulher que você passou uma noite de carnaval quando você tinha dezenove anos. Quanto aos signos, você pode não acreditar neles, mas eles acreditam em você.
    _Mas estes filhos não são meus. A empregada saia com mais homens. Não era só comigo. E este outro eu nem sabia que existia.
    _O senhor pode até não saber da existência de algumas pessoas, mas elas existem. Lembre-se do que está escrito na maioria das escrituras sagradas: “O que Deus uniu o homem não pode separar”. Seja casamento, filhos ou até um animalzinho que vive com você. Se estão vivendo em seu mundo é porque você tem responsabilidades sobre eles, e aqui, as responsabilidades são cobradas por que todas elas estão expostas para análise pelo poder da Justiça.
    _ Mas se eu estou divorciado da minha primeira mulher eu não tenho direito de procurar alguém com quem eu possa ser feliz?
    _ Sim pode, mas seus laços com a antiga não acabaram, você tem seus direitos e tem seus deveres. Com a antiga família é maior ainda o laço. A família é como um pacto entre pessoas afins para viverem em harmonia. Se você quebrou a harmonia por causa da sua luxúria, tem culpa e deve ser julgado por sua culpa.
    _ Qual foi minha luxúria? Buscar uma mulher, um novo amor para minha vida?
    _ Sua luxúria está em todos seus atos eróticos. Você não quis uma companheira de amor, mas teve várias companheiras de sexo. As festas regadas à bebida e drogas não ficam devendo nada para as festas de Baco e suas bacantes. Mas Baco era um deus e suas festas eram consideradas sagradas. Sexo por sexo, é só prazer. Isto, é luxúria.
    _ Mas afinal, é errado o sexo? Porque então Deus criou o sexo. Para pecarmos?
    _ Ora Tomás, tudo o que existe no Universo foi feito através do sexo. Positivo e negativo nas várias nuances, tais como o claro e o escuro, macho e fêmea, amor e ódio e inclusive, bem e mal. O bem e o mal são ações do sexo. Um não existe sem o outro. O pecado é a demasia, o desequilíbrio deste eixo fulguroso, onde o prazer encobre o desejo pelo equilíbrio entre duas forças antagônicas.
    _ Você quer que eu acredite que o bem e o mal têm ligação com o sexo?
    _ Se você der uma olhada na história de Adão e Eva verá ali escancarado para quem quiser ver. O bem e o mal lado a lado com o sexo.
    _ Então, de que vale a justiça que eu tanto estudei para ser um bom advogado?
    _ As leis humanas foram criadas para a humanidade. As leis divinas foram criadas para as criaturas divinas, independente de sua raça ou gênero. Homem, deus, diabo, gnomos, djins, Papas, Bispos, Budas, todos estão sob o mesmo jugo, sob o mesmo critério de julgamento.
    _ Em minha vida sempre acreditei que o mal é sempre mal e o bem sempre bom. Não é isto uma verdade? Existe o mal bom, um mal necessário? Ou um bem ruim?
    _ Os pontos de vista se entrelaçam e o que vemos são respostas humanas para questões divinas. Novamente te falo. É necessário o equilíbrio entre os opostos. A guerra é um mal necessário. Talvez na ideia humana não seja, mas na ideia divina têm sua razão de existir. Assim com as catástrofes naturais, mal gerado pela natureza que devasta milhares de pessoas, dando em compensação, a chance para várias empresas de reconstrução, como uma das que você advogava a favor, se enriquecem as custas das desgraças alheias, ou talvez, alguns médicos que se aproveitam da doença dos outros para ganhar dinheiro com infindáveis tratamentos sem cura, onde os efeitos colaterais são piores que a própria doença. Não é também um bem revestindo o mal?
    _ Mas o mal não é fruto do ódio?
    _ E o amor não é o inverso do ódio? Amor e sexo não trabalham em conjunto? O desequilíbrio de um gera o outro, e, o que era amor torna-se ódio. Assim, amor à pátria gera a guerra, amor por uma religião gera a perseguição das outras, amor por coisas bonitas gera o roubo, e assim vai. E a história de Abel e Caim retrata também o que está sendo dito aqui.
    _ Caim não matou Abel por inveja?
    _ Caim matou Abel por inveja, cobiça e ódio. Todos estão ligados ao sexo, ao prazer e ao desejo.
    _ Não vejo onde o sexo entra?
    _ Prazer e desejo são atributos do sexo. É atração e cobiça. Tal é o mandamento: “Não cobiçais a mulher do próximo”. Ou seja, desejo e cobiça ligados ao sexo. Se você sente desejo ou cobiça algo de outra pessoa, criou a inveja dentro do seu coração.
    _ Se for pensar desta maneira, então eu estou condenado à danação no inferno. Tudo está ligado. Só vou me livrar pela gula e pela preguiça. Já que não sou de comer muito e também adoro trabalhar. Orgulho, eu sei que não dá para disfarçar.
    _ Porém Tomás, o que você acha não interessa aqui. O que interessa é o que realmente você é. A gula não se aplica apenas ao alimento físico, que você digere no seu cotidiano. Alimentar a alma também entra em jogo. Você alimentou a alma com a avidez de riquezas, devorando com sua gula a ecologia. Ajudou madeireiras destruírem grandes florestas, auxiliou empresas destruírem rios e mares, e, desperdiçou. Desperdiçou muito do que lhe foi dado. A gula por coisas novas fez você jogar coisas em bom estado para dar lugar a coisas da moda. O seu carro novo, seu celular que tira fotografia, seu micro mais rápido, sua televisão de plasma.
    _ Minha nossa! Não sabia que as palavras se encaixam em coisas de duplo sentido?
    _ Isto não é duplo sentido. O homem cria suas cascas e torce os sentidos, muda o que é real e cria uma verdade artificial e depois, acredita que sua verdade artificial é mais verdade que a verdadeira verdade. Gula é gula, é ganância, é volúpia. Preguiça não é apenas com o trabalho, onde se deveria buscar um modo de sobrevivência e não um modo de enriquecer e gastar tanto com supérfluos e coisas descartáveis. A maior preguiça é achar que é religioso porque acredita em alguma religião, por que vai numa igreja ou templo. Mas sai dali do mesmo jeito que entrou. Por dentro é a mesma pessoa mesquinha e cheia dos ditos pecados que sua própria igreja lhe impõe. Então vai confessar com o padre, que pode ter até mais pecados, e está livre e absolvido. Vai num culto onde o senhor Jesus te liberta do demônio, mas vira a costa para sua igreja e o seu velho amigo está ali do seu lado, te auxiliando fazer as mesmas coisas. Reza, faz preces, medita, compra amuletos, cruzes, velas, sacrifica animais inocentes. Tudo para alcançar Deus. Mas ele está tão perto, mostrando o caminho aberto para aquele que quer ver. E enquanto você sai pelas ruas e pelos mais longínquos lugares, Deus te espera confortavelmente dentro da sua casa. Somos todos iguais perante as leis, só o que devemos fazer é enxergar a luz no fim do túnel. Você enxergou Tomás, é a hora de você mudar sua vida. Eu sempre falo para quem chega até aqui. Vai, volta e não peques mais!
    _ Tente mais uma vez!- falava o médico apressado.
    _ Voltou doutor! O coração voltou! De volta à vida doutor Tomás!
    _ Doutor Tomás, pode me ouvir?-falou o médico.
    _ Sim, posso te ouvir, mas não gostaria.
    _ Deve estar delirando doutor-falou o enfermeiro.
    _ Não, estou ouvindo perfeitamente. Eu vi o túnel que todos falam. Não me lembro direito do que vi, mas me lembro de um anjo. Agora sei que andava errado com minha vida.
    _ Eu não falei doutor, está delirando como todos os outros. Sempre a mesma história do túnel.
    _ Deixem-no descansar. Daqui a pouco ele não se lembrará de mais nada-falou o médico.    
    “É o que vocês pensam”. Pensou o senhor de cabelos brancos.
    “Atenção! Mais um chegando pelo túnel!” - falou uma voz pelo alto falante da sala.


Elder Prior     




 

domingo, 29 de junho de 2014

A CHURRASCARIA




A CHURRASCARIA

Leandro era um rapaz magro, cabelos espessos, olhar forte e decidido. Trabalhava em consertos de cabos de alta tensão, viajando pelas cidades do interior do estado de São Paulo. Se arriscava muitas vezes, dependurado nas torres de energia, instalando ou trocando os grossos cabos de alta tensão. Geralmente viajava a semana inteira, de cidade em cidade, pernoitando em pequenos hotéis das cidades que visitava. Muitas vezes, parava nos restaurantes de beira de estrada para almoçar, jantar ou fazer um lanche.
Naquele dia, Leandro parou numa churrascaria. Havia um enorme anúncio escrito: "Rodízio de carnes nobres". Nobres? O que seriam as carnes nobres? Na dúvida, resolveu parar e experimenta o tal rodízio.
_O que são estas carnes nobres?- perguntou ao caixa.
_Aqui temos vários tipos de carne. De frango à jacaré.
_Hum! Acho que vou experimentar. O preço é muito bom.
_Então queira sentar-se. Escolha a mesa que quiser.
O garçom começou trazendo carnes brancas, mas dava para sentir que eram bichos diferente.
_Esta carne branca é de que bicho?
_Nos temos uma política na churrascaria de não dar informação do que o cliente está comendo. Tivemos problemas com um senhor que comeu cobra e morreu. Não foi por causa da cobra, mas a família queria nos incriminar. Posso te dizer que depois deste episódio, abolimos a carne de cobra, mas não dizemos mais o que o cliente comeu. Quer comer coma. Apenas não pergunte.
Achou esquisito a atitude da churrascaria. Ficou pensativo, mas acabou achando razoável.
Depois das carnes brancas, vieram as escuras, outras sangrentas, umas com alho, outras só com sal. Algumas, conhecia, ou, parecia conhecer. Já tinha comido coração e miolo de boi, buchada e outros pratos exóticos.
Comeu até se empanturrar. Deu até sono pra seguir viagem. Mas como tinha horário pra cumprir, tomou um café e seguiu. Não era muito longe dali onde ia.
Chegando na próxima cidade, alugou um quarto, tomou um banho, sentiu-se meio enjoado com tanta carne. Desceu para a sala central da pensão. No centro da sala havia uma mesa com jornais e revistas. Era rodeada por uns velhos sofás vermelhos, gastos pelo tempo. Resolveu ler um jornal.
Estava em primeira página a notícia de vários caminhões da carga roubados naquela região. Todos desaparecidos com caminhoneiro e tudo. As pessoas temiam sair de noite da cidade. Uns achavam que eram bandidos, outros tinham medo de assombração e outros ainda, achavam que eram extraterrestres que raptavam pessoas e aproveitavam para pesquisar as mercadorias do caminhão.
Leandro era meio assustado. Decidiu dormir mais cedo para não se arriscar. De manhã, começou seu serviço já com ideia de na hora do almoço ir embora e passar de novo na churrascaria. Conseguiu. Saiu até mais cedo do que esperava.
Quando foi chegando perto da churrascaria viu luzes vermelhas e amarelas. Seu coração quase saltou pela boca, pensando na história dos ETs. Chegando mais próximo, viu que se tratava de policiais, e, a churrascaria estava interditada.
Curioso, perguntou ao guarda que estava mais próximo.
_Que aconteceu seu guarda?
_Esta churrascaria era na realidade de um quadrilha de roubo de caminhões. Pegavam os caminhões e levavam direto para a fronteira pelo Paraguai, com placas e documentos falsificados.
_Nossa! Quem diria. Uma churrascaria tão grande e com o movimento de pessoas que tinha!
_O pior é que não é só isso. Eles pegavam os motoristas dos caminhões roubados e matavam. Os cortavam em pedaços e vendiam como carne nobre na churrascaria. Evitavam falar de que bicho usavam a carne. Já imaginou quanta gente comeu carne de gente aqui?
Leandro imaginou. As apetitosas rodadas de carnes que havia comido. As variadas carnes que não sabia o que era. Sentiu náusea. Quis sair logo dali.
No radio dava pra ouvir o comentário de um jornalista:
_A churrascaria tinha o nome de "Churrascaria do Anibal". Disse um dos pertencentes da quadrilha que era uma homenagem prum filme de seu ator predileto. Anthony Hopkins.
_Eu queria colocar o nome do filme, mas não sabia direito como escrevia, coloquei "Anibal" mesmo. Só depois vi que tinha um H. É Hanibal. Churrascaria do Hannibal.

"Escutei esta história de um conhecido que viajava pelo país. Diz ele, que comeu carne de gente sem saber.
Verdade ou mentira? Nunca mais o vi, mas sempre me lembro desta história macabra".

Elder Prior

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O ESPÍRITO DA FLORESTA

     

   
 O ESPÍRITO DA FLORESTA

    Sebastião João era um templário que não deu certo. Queria ser uma pessoa importante, ou pelo menos, frequentar a corte. Com a glória inicial de Cristóvão Colombo e depois, de vários portugueses que vieram se aventurar do outro lado do oceano, resolveu também tentar a sorte.
    Vendeu o que tinha de herança da família. Emprestou altas somas de alguns judeus conhecidos, rezou e pediu auxílio aos jesuítas. Então, montou a sua nau com mantimentos, marinheiros, alguns aventureiros, militares, mercenários e religiosos. Contratou também alguns ciganos, uns piratas ingleses e uns primos holandeses. Veio pelo mar, desconhecido para ele, marinheiro de primeira viagem. A maioria do tempo em alto mar passou mal, com enjoo, aguentando as risadas e piadas dos outros que já eram acostumados com o mar. Mas, enfim chegaram.
  Em terra firme foi muito pelo contrário. Sebastião joão era destemido. Se embrenhava pelo mato como se já morasse ali, enquanto os outros temiam. Temiam índios, cobras, mosquitos, e as lendas já arraigadas, sobre a floresta. 
  A verdade é que em pouco tempo, de trinta e três pessoas sobraram apenas sete. Alguns morreram de febre, outros por ataques de índios, outros comidos pelos índios, alguns com veneno de cobra e outros ainda, com medo da floresta.
  Um dia, saíram os sete para uma bandeira pelo interior da Capitania. Fazia muito calor e todos estavam exaustos de tanto fazer picadas na poderosa floresta. De repente ouviram vozes. Pareciam estar bem perto, mas, ao mesmo tempo que se ouvia uma conversa perto, ouvia-se também longe. Não dava para entender o que falavam. Parecia que estavam escondidos nas copas das árvores. Os homens olhavam  e não viam absolutamente nada. 
  Seriam espíritos da floresta? Começaram pensar alguns dos homens. Até que algum deles gritou.
    _Ah!
    Com grande assombro ouviram uma grande quantidade de respostas.
    _Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
    Parecia que havia muitos. Os portugueses perceberam que talvez não sairiam vivos dali. Três correram sem rumo para dentro da floresta e acabaram caindo num precipício escondido pelo emaranhamento de mato. Dos quatro que sobraram , um resolveu tentar um diálogo, gritando bem alto.
    _Eu me rendo!
    Em resposta, ouviu a mesma coisa.
   _Eu me rendo!
   Assustado ainda mais, por ouvir que eles podiam falar sua língua  resolveu dar um tiro. Foi quando saiu uma grande quantidade de vultos. Pareciam pássaros, mas poderiam ser demônios. Demônios da floresta. 
    A coisa ficou pior. O tiro acertou um cacho de abelhas furiosas que desceram sobre eles. O único que conseguiu escapar com apenas umas ferroadas foi Sebastião João, pulando num rio. Os outros não tiveram a mesma sorte. Imagine o tamanho do cacho de abelhas que existia ali, naquele lugar que ficou por muitos anos sem ninguém jamais ter mexido. 
    E foi assim que morreram estes desbravadores, ficando somente Sebastião João. Saiu do rio e viu seus amigos inchados e mortos de tantas ferroadas. Sentou-se e chorou. Estava vivo ou morto? Cansado, imaginou a vida na corte e a distância que se encontrava de tudo. 
    Então aconteceu o inesperado. Um lindo pássaro  pousou bem perto dele. Parecia que queria ver aquele bicho tão esquisito que surgiu no meio do mato. Sebastião João encantou-se com o pássaro. Era um verde muito bonito, com mesclas de amarelo, azul e vermelho. Sem pensar, falou com o pássaro.
    _Tu és o único amigo que tenho agora.
    Para seu espanto, o pássaro repetiu.
    _Único amigo.
  Então percebeu que tudo que falava ao pássaro, ele retornava. Ficou horas se divertindo com as repetições do novo amigo. E riu. Riu muito, Gargalhou. Porque descobriu que o temido espírito da floresta era na verdade um pássaro dócil, bonito e divertido.
   Um dos primeiros nomes do Brasil foi "Terra dos Papagaios", porque aqui se encontrou uma enorme variedade desta ave magnífica.     

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O MENDIGO E O RELIGIOSO





Wanderleison veio do Sergipe para São Paulo. Não é um estado muito conhecido pelos estados mais ricos do Brasil. Talvez por isso, tenha vindo, assim como muitos, tentar uma vida melhor na grande capital paulista. Mas São Paulo não é uma cidade de vida fácil. Percebeu isso logo que chegou. A malandragem levou tudo o que tinha. Ainda que tudo representasse quase nada.
Só com a roupa do corpo, Wanderleison aprendeu viver na rua com outros que ali também viviam. Mas ao contrário da maioria, não usava nenhuma droga, nem álcool, pra se esquentar do frio. Catava lixo para reciclagem e os lia. Lia tudo que pegava. No início, não entendia quase nada por causa de sua pouca escolaridade. Mas seu interesse era maior. Quando tinha alguma dúvida perguntava para as pessoas que encontrava em seu dia a dia. Eram professores, advogados, policiais, assistentes sociais, padres e pastores. Todos os tipos de pessoas.
Wanderleison foi se tornando uma enciclopédia ambulante, jogada no meio do lixo. Quanto mais envelhecia mais sabedoria adquiria.
Então, numa bela tarde, estava descansando como sempre fazia quando passava por aquele trecho da cidade. Aos pés da velha igreja do Brás, viu um senhor se aproximando. este senhor estava vestido como um clérigo católico. Olhou bem dentro dos seus olhos miúdos e castigados pelo tempo. Tempo de vida e tempo irregular da cidade grande, onde hora faz frio, depois esquenta, então chove sua chuva ácida e torna esquentar, com a fumaça de nuvens poluídas.
Mas, lhe olhou nos olhos e o abençoou. Talvez não esperasse a mesma atitude do mendigo. De fato, Wanderleison também o abençoou.
Então a santidade voltou.
_Que atitude nobre meu filho.
_Talvez necessite mais da benção divina que eu.
_Talvez tenha razão. Sou um pecador.
_És pecador e sabes a razão. Tornando-te ainda mais pecador que eu.
_Não sabes o peso que trago na alma.
_Talvez eu saiba. Embora não admita como uma desculpa.
_Mas não é uma desculpa. Porém, existem coisas que não se pode mudar, mesmo querendo.
_Ah, disso eu sei muito bem meu senhor.
_Sabes das forças que movimentam o mundo. Do qual somos apenas peças.
_Verdade. Tu, o bispo, próximo ao rei. Eu, apenas a peça que se sacrifica para o bem estar do reinado. Sou um peão. Aliás, sou menos que o peão. Sou o tabuleiro, onde todos pisam com seus valores. Pisam e nem percebem o quanto importante é o tabuleiro.
_Pois é. Sem tabuleiro não há jogo.
_Mas haverá um dia em que não haverá mais jogo. Não haverá mais tabuleiro.
_E neste dia Deus estará conosco.
_Não. Deus estará com uma outra humanidade. Vocês estarão no inferno, amargando suas culpas, por falta de comprometimento com os próprios votos e alianças. Neste dia, não haverá fome, e o mundo será outro. Também não estarei mais aqui. Já não sou inocente. Sei agora que aqui jamais transita um inocente.
_Mas os inocentes virão.
_Virão e não estaremos mais aqui para lhes manchar com nossa nódoa imunda. 
_Mas não sou o único. Minha religião não é a única errada.
_É qual é a certa, não é? Mas devemos manter nosso papel hipócrita. Vista suas vestes, suas regalias, suas riquezas, seus altos postos, seus templos, seus ornamentos. Enquanto aqui, visto-me de meus retalhos, minhas sobras de alimentos, minha alma de pobreza, meu papelão de dormir na rua, meu templo interno, que é minha própria cabeça. E que eu possa abrir o jornal sem ver tantas mortes, tantas doenças, tanta fome pelo mundo. Que eu possa, pelo menos em meu sono, ser abençoado.
O sacerdote abaixou os olhos e caminhou devagar. Olhou triste quando outro sacerdote veio ao seu encontro. E mais, milhares de fotógrafos, emissoras de televisão, chefes políticos, seguranças, missionários, religiosos, manifestantes em favor de alguma causa, ONGs, mulheres beatas, outras nem tanto.
Enquanto isso, Wanderleison virou para o lado. Puxou o papelão sobre o corpo, fechou os olhos. Sentiu uma lambida na boca. Abriu os olhos. Era o Pipo, seu cãozinho vira-lata, amigo inseparável. Puxou-lhe para perto. Fechou novamente os olhos. Sorriu e pensou, "pelo menos posso dormir".



Conheci um senhor que realmente viveu desta forma. Foi catando materiais recicláveis que criou três filhos. 
Autodidata, aprender muito com livros tirados do lixo, inclusive em outras línguas, traduzindo com dicionários. 
Espero hoje, onde estiver, que esteja muito bem.

Elder  Prior

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A MORTE DO ALQUIMISTA


http://3.bp.blogspot.com/-mUKhf1MzIBI/TwivWsLhdxI/AAAAAAAAAf8/cWUXDuAtQVY/s320/alquimista1.jpg



  Pedro era um rapaz curioso. Sempre atrás de descobrimentos da ciência e de assuntos ligados ao ocultismo. Quando conheceu o espanhol Juan Pablo, jamais achou que sua vida mudaria tanto. Conheceu e se fascinou por aquele homem estranho, vestido de roupas escuras que pareciam combinar com sua barba e cabelos negros. Sobrancelhas fechadas e um olhar penetrante. 
  Talvez Pedro teve um certo receio em se aproximar de tal homem. Mas o receio não deixou de notar um anel, que parecia ouro, no indicador do homem. Havia nele um dragão...ou seria um leão. Não saberia dizer. E foi desta forma que Juan Pablo entrou em sua vida.
   _Gostas de joias?
   _Não que eu goste. Me chamou a atenção.
   _Muitos se fascinam por esta bela joia  É muito antiga. Muitos já morreram por ela.
   _Então é muito valiosa?
   _Depende do valor que lhe dão. O ouro é valioso, mas o que ela representa não tem preço, pois, guarda muitos segredos que somente os que sabem o seu uso saberão.
  A noite estava escura e fria, e, Juan Pablo ficou em conversa com o jovem Pedro. Estavam em um pequeno bar do centro da cidade. As prostitutas e os bêbados entravam e saíam. Mas a conversa foi até o Sol raiar. Pedro se impressionou com as histórias contadas pelo estrangeiro. Principalmente coma história de fazer ouro.
   _Mas o senhor consegue transformar coisas em ouro?
   _Este anel foi gerado assim.
   _E como eu poderia aprender esta mágica?
  _Não é mágica. Esta arte se chama Alquimia e é muito antiga. Gostarias mesmo de aprender?
   _Sim, gostaria.
   _Eu poderia te ensinar se trabalhar para mim.
   _O que eu tenho que fazer?
   _Dar-te-ei meu endereço. Estejas lá logo cedo. Abra a porta sem barulho. Encontrarás seis pares de botas. Pode engraxa-las,  deixando-as brilhando. Depois, encontrarás um rolo de fumo no canto esquerdo da sala. Corte um dedo e pique-o. Coloque dentro de um cachimbo que estará próximo à estante com livros. Tire o trigésimo terceiro livro da quarta carreira de cima para baixo e coloque-o encima da mesinha em frente à poltrona. Abra o livro na página sessenta e seis. leia o sexto parágrafo em voz alta. Espere por quinze minutos e abra o açucareiro em sua frente. Esta será sua tarefa neste primeiro dia.
  Pedro foi para sua casa, tentou se lembrar de tudo que Juan Pablo havia lhe dito. Não conseguiu dormir diante desta história esquisita. Mas preparou-se a noite toda para ir ao local bem cedo e fazer tudo o que foi dito.
  Era ainda escuro quando Pedro chegou ao local do endereço. Havia uma casa antiga, porém, conservada e bem limpa. Parecia que os metais brilhavam naquele lugar. Era um brilho que transcendia o normal, aquilo que estava acostumado em seu dia a dia. Pedro subiu uma escada de madeira muito grossa e parou em frente à porta. Viu nela uma inscrição: "El alma, todavia respira". Achou estranho, mas ficou com a frase na cabeça. Que seria aquilo?
  Entrou. Era uma sala muito aconchegante, com uma estante de livros até o teto. Meio escura de fato. Mas as luminárias de cristal davam uma beleza diferente ao local. Procurou com os olhos a mesa. Era uma mesinha, talvez, só para leitura. Observou num canto alguns aparelhos desconhecidos. Para que serviriam? Lembrou-se da sequência. Engraxou as botas, que ficaram muito bem engraxadas. Picou o fumo e colocou no cachimbo. Procurou na listagem o livro e o retirou. Olhou suas páginas até encontrar a sessenta e seis e o parágrafo. Então leu em voz alta:
   
   "O que reluz é ouro,
     O vil metal das almas em agouro,
     Sedentas em sua penúria, à riqueza,
     Perdendo sua alma e sua beleza".
    
   Não entendeu o que leu. Mas abriu o açucareiro. Dentro dele havia uma velha moeda de ouro maciço e um papel escrito.

    "Retire a moeda e vá embora". 

   Retirou a moeda e foi-se. Foi em seu caminho observando tal moeda. Era muito antiga, Talvez, de uma época perdida no tempo. Com medo de alguém ver, guardou rapidamente e foi direto para casa. Não dormiu naquela noite.
  No outro dia chegou no mesmo horário. Abriu a porta e se deparou com outra pessoa dentro da sala. Era Ferdinando, um senhor de meia idade e que havia migrado da Argentina à algum tempo. Os dois se assustaram. Talvez com a surpresa de ver outra pessoa na sala, ou, querendo saber o que o outro estaria fazendo ali.
  Então surgiu um outro homem. Este  vestido de médico, ou talvez, com roupas de laboratório. Estava com uma expressão de quem se assustou com alguma coisa, ou, espanto por ver mais duas pessoas ali. Disse:
  _O que se tem pra fazer está anotado neste caderno de capa preta encima da mesa - saiu sem olhar para trás.
  Pedro resolveu ver o que tinha no livro. Havia um monte de símbolos ilegíveis no início. Depois, a data daquele dia confuso e o nome Ferdinando seguido do de Pedro. 
    Para Ferdinando ele pedia para picar o fumo e levar as cinzas do cachimbo para fora. Enquanto a Pedro, pedia para engraxar as botas.
   Ferdinando foi para fora sem querer deixar Pedro sozinho na sala. Quando saiu, Pedro não titubeou. Correu ao açucareiro e abriu para apanhar outra moeda. Mas não havia nada dentro. Será que o outro já tinha pego sua moeda?
    Ferdinando voltou. Pedro nem esperou.
    _Onde está a moeda?
    _Que moeda?
    _A minha moeda do açucareiro, me devolva!
  Ferdinando correu para a estante abriu um potinho e gritou exasperado.
    _Onde está o anel?
    _Que anel?
    _O anel de ouro que estava aqui?
    _O medico deve ter roubado!
    _Não. Eu cheguei primeiro que ele aqui.
    _Onde estarão então. Será que não está em outro lugar?
    _E as palavras mágicas? Tem que falar as palavras!
    _Verdade. O livro da prateleira.
    Procuraram o livro, mas não estava lá.  Então decidiram procurar pela casa. Olharam todos os lugares. Cozinha, banheiro, quartos, a sala e os livros. Nada.
    _Existe um porão - disse Ferdinando. Deve ter sido escondido lá.
    Desceram ao porão e quase caíram da escada quando viram Juan Pablo estendido no chão com os olhos vidrados e a boca roxa. Não sabiam se chamavam a polícia ou procuravam as relíquias. Pedro notou que o anel não estavas no dedo do morto. Olhou para Ferdinando e percebeu o que seus olhos diziam. Então, procuraram ali também as relíquias. Foi quando acharam um papel escrito por Juan Pablo:

  "Uma pessoa me matará. Ele chegou cedo e engraxou minhas botas. Cortou fumo. Colocou no cachimbo. Encontrou o livro mágico que lhe deu o fruto do seu serviço. Sua ganância fez com que minha vida tirasse, e perdesse assim, o grande segredo da alquimia. O de transformar chumbo em ouro".

    Pedro chegou, e talvez, fez tudo isso e perdeu o segredo.
    Um dia antes Ferdinando fez as mesmas coisas.
  O médico, na realidade, não era médico e nem trabalhava em laboratório, mas colocou o jaleco com medo de ser contaminado pelo que matou o homem. Seu nome era José. Não passava de outro ganancioso.
   _A principio todos são culpados - disse o policial, que chegou logo depois trazendo José de volta. Foi apanhado quando ia saindo da casa.
   O legista deu causa-mortis  por envenenamento. Porém era um veneno raro e muito antigo, usado pelos velhos alquimistas quando necessitavam silenciar algum segredo. muitas vezes, com o suicídio. Será?
  Aquela voz suave e penetrante ficou parada nos ouvidos da atendente de plantão policial:

    "Da velha arte compartilhada com ciganos,
      O homem caiu em seu maior engano,
      O amor por aquilo que se vai,
      Faz o homem voltar para o mesmo lugar,
      A pedra transformada precipita  e cai,
      Voltando ao mundo como algo vulgar,
      E nesta manhã morrerei por mão em ânsia,
      Vítima dos erros e dos olhos da ganância".
                                     
                                        (Juan Pablo de Leon)

terça-feira, 13 de agosto de 2013

CONTO DE FIM DE SÉCULO

                                                 



                                                    CONTO DE FIM DE SÉCULO
                                                       (Um conto para a eternidade)


    Olhei no chão e vi um corpo sem vida e que pelo jeito não voltaria respirar. Sim, era realmente o meu corpo que jazia ali. Compreendi que tinha morrido e comigo todos os meus desejos e minha felicidade maior, a vida. Logo eu que adorava viver e aproveitar todos os momentos ao máximo. Em meus devaneios comecei lembrar de toda minha vida e de toda trajetória de momentos que foi meu caminho como um ser vivente. Lembrei-me da infância pobre e complicada, onde, com tanto esforço meus pais conseguiram criar toda aquela quantidade de filhos. Lembrei-me da adolescência, quando saíamos pelas matas atrás de passarinhos e aventuras. Da minha época de namoro, as várias mulheres que conheci e os vários lugares por onde passei. Enfim, chegou a idade de homem e a idade na qual me transformei em pai. Logo eu, que jamais pensei em se casar.
    Bom, estava eu pensando em tudo o que havia passado vivo, quando surgiu dois rapazes com cara de anjo, isto é, no meu âmago algo dizia que eram anjos. Não tinham asas, mas seus olhos brilhavam e não andavam no chão como nós humanos. Percebi que vinham de um túnel muito iluminado, que parecia uma porta para outra dimensão. Compreendi que devia ir com eles e atravessar por aquela luz, descobrir o que tinha do outro lado.
    Os anjos me levaram para uma sala muito branca e espaçosa. Ao fundo, havia uma mesa com vários lugares para sentar e no meio, uma cadeira semelhante a um trono. Lá estava um homem ou um anjo semelhante ao homem, porém, era branco, de uma brancura maior que a dos albinos que fazem parte de nossa terra. Tinha os cabelos e a barba branca, e de tão branco chegava emitir luminosidade, que se refletia em sua roupa, que também era branca.
    Um dos anjos cochichou em meus ouvidos me dizendo que aquele era o rei dos anjos, ao qual, os homens chamam de Iluminado, Ungido. Havia surgido em vários pontos da Terra espalhando suas mensagens de amor e paz. Alguns o conheciam como Buda, outros como Krishna, ainda outros como Jesus, além de ter surgido com outros nomes menos conhecidos, porém, ensinando sempre a mesma idéia, o amor.
    Olhei para aquele ser e percebi em sua face a jovialidade e a pureza, junto com um ar de compreensão e justiça. Era realmente o grande mandante de todas as possibilidades de transformação mundial.
    Quando cheguei não havia tomado conta de quanta gente estava ali comigo. Havia pessoas de várias raças. Negros, japoneses, indianos, louros, morenos. Havia também budistas de várias facções, cristãos de vários caminhos filosóficos, espíritas, masdeístas, maometanos, enfim, pessoas de tudo quanto é tipo. Todos haviam chegado ali por causa dos seus passos retos na Terra. Mas e eu? Porque estava ali se na vida não fora nada santo?
    Enquanto eu me perdia em minhas indagações, eis que surge na porta outro ser. Este brilhava de tal forma que não pude fixar o olhar em sua face. Um dos anjos me cochichou no ouvido que se tratava do Pai. Sim, era Deus em pessoa! Então, me amedrontei e comecei rever todos os meus erros e o meu passado. Enquanto isso, Ele se sentava acomodadamente no trono, mandando Jesus procurar outro lugar para sentar. Ainda brincou, desfazendo um pouco a cara carrancuda, dizendo a Jesus.
    _Estais também querendo tomar seu lugar?
    Jesus sorriu e olhou para o canto esquerdo da mesa onde estava sentado um anjo carrancudo e emburrado. Este se vestia todo de preto e em sua mão trazia uma bengala e o seu chapéu. Novamente o anjo que me acompanhava cochichou ao meu ouvido:
    _ Este é Lúcifer, o anjo que quis passar a perna no Pai, mas esta aqui porque o Pai lhe deu um dos seus reinos para comandar.
    Eu já estava atordoado com tanta gente e tanto movimento, não conseguindo entender o que sucedia ali. De repente ouviu-se a voz do Pai, atordoando todos que ali estavam:
    _ Vamos iniciar o trabalho de aplicação da Justiça Divina, trabalhando as coisas como devem acontecer deste dia em diante, já que ninguém entendeu o que seu discípulo João tentou explicar, não é Jesus.
    _ Mas meu Pai, João escreveu tudo o que podia para aqueles incrédulos. Somente alguns conseguiram entender-falou Jesus tentando se explicar.
    _ Mas falou de um jeito que as pessoas não conseguiram assimilar. Olhe lá para baixo e veja a baderna que está. Tem gente roubando e enriquecendo com seu nome. Gente defendendo os pobres e oprimidos com o intuito de ganhar méritos ou ser reconhecido como grande personagem no mundo-esbravejou Deus.
    Então vi entrar pela porta um outro homem. Este não era semelhante aos anjos, mais se parecia comigo, com a pobre humanidade desorganizada. Novamente o anjo cochichou em meu ouvido. Dizia que o homem era a encarnação de João e que ainda vivia na Terra. Precisamente como Presidente do Brasil. Segundo as más línguas, veio através dos tempos falando coisas que ninguém conseguia entender. Depois de ser João, veio na idade média como Dante Alighieri, escrevendo a “Divina Comédia”, porém, novamente ninguém o entendeu e achou sua obra grandiosa, mesmo sem entende-la. Depois voltou como Freud. Cansado de falar e ninguém entender, voltou e tentou explicar tudo através da Psicanálise. Mas novamente, alguns separatistas achavam que ele estava errado.
    Agora voltava para ajudar nos planos do fim de século. Cansado de não ser entendido, decidiu fazer apenas o que a Justiça Divina lhe desse como missão. Foi o que aconteceu. A Justiça decidiu que ele voltaria à Terra sendo presidente do Brasil e tentar endireita-lo.
    Mas vamos voltar ao céu para não magoar ninguém.
    _ E então João, a humanidade conseguiu entender você?- perguntou Deus.
    _ Meu Senhor, escrevi o Apocalipse, cheio de chaves e símbolos que sempre foram parte da minha natureza, mas, era bastante legível para quem quisesse entender. Mas a humanidade não gosta de pensar. Voltei como Dante, e novamente escrevi sobre a espiritualidade maior, sobre os diversos mundos, tentando colocar um pouco mais de idéias dentro das cabeças humanas. Logo, estava eu novamente perseguido e injuriado. Como Freud, resolvi explicar a mágica influência da energia sexual, que os hindus chamam de Kundalini, os cristãos de Espírito Santo, através de uma abordagem científica. Porém novamente a essência do meu trabalho não foi considerada. Então deixei nas mãos da Justiça Divina, que levou encarnar no Brasil, como presidente daquele país. Mas além de não me entenderem e não entenderam a posição em que o país se encontra, ainda acreditam que eu estou governando divinamente, levando o país para a ordem e o progresso estampados na bandeira.
    _ Resumindo, você não conseguiu passar sua mensagem-falou Jesus.
    _ Ai meu Jesus! É tão difícil para eles entenderem. Eu acho que aquele que está na última cadeira do lado esquerdo anda trabalhando mais que nós ou o homem prefere copiar seu modo de ser-falou João se referindo a Lúcifer, que desta vez sorriu com um ar de deboche, quase dizendo: “eu venci”.
    _ Basta de palavras! Chegou a hora do julgamento. Chamem os Anciãos que vamos colocar a justiça em dia!
    Enquanto Deus falava, todos que ali estavam estremeciam, vendo que Deus estava realmente irado e com a ira divina, ninguém brinca. Chegaram os Anciãos, todos vestidos de branco, com suas longas cabeleiras e suas barbas brancas, porém com o rosto jovial, parecendo ter parado no tempo.
    Então os anjos que me acompanhavam me levaram para grandes bancos que ficavam um pouco mais longe do trono e da mesa, onde ao que parecia, a maioria das pessoas estavam. O anjo novamente me cochichou no ouvido, dizendo que na mesa diante do trono ficavam apenas os espíritos totalmente puros e que já haviam se libertado de todas as superstições e idolatrias criadas pelos homens. Mostrou-me também alguns dos que estavam na mesa. Havia um grandalhão do lado de Jesus com um livro nas mãos. Segundo o anjo, aquele era Pedro, que havia voltado a Terra como Martinho Lutero, tentando endireitar o caminho que seus sucessores entortaram. O livro que trazia se tratava dos julgamentos de todas as igrejas cristãs. Desde a católica romana, passando pela anglicana, pela ortodoxa e culminando nas várias facções do protestantismo. Pedro estava cabisbaixo, pois assim como João, viera à Terra tentar redimir os homens de sua ganância, mas descobriu que a riqueza sempre falou mais alto que a espiritualidade. Foi obrigado pela Justiça Divina redigir leis que compõem o julgamento das seitas e religiões.
    Olhei para o lado esquerdo da mesa, Lúcifer parecia estar mais feliz ainda. Eu podia até ler seus pensamentos maquiavélicos. Tudo como ele organizara, tudo como ele garantira durante tantos anos, estavam dando vários frutos. Vi perto dele outro homem vestido de escuro e indaguei. Quem será aquele que está feliz junto ao demônio. Fiquei pensando... Hitler? Napoleão? Judas?
    São todos eles ao mesmo tempo-falou o anjo fofoqueiro. Judas se matou depois de trais Jesus. O Diabo gostou tanto dele que lhe deu várias vezes a chance de voltar à Terra para fazer estragos. Veio na inquisição para deturpar as regras de igreja. Logo depois, encarnou-se como Napoleão levando o mundo curvar-se aos seus pés. Encarnou-se como Hitler, trabalhando como nunca foi visto em prol da magia negra. Agora ainda vive, atravessou o mar e está onde vive a liberdade, já que tal liberdade é pretexto para causar mais danos.
    Falando isto, o anjo retirou-se de perto de mim e foi sentar-se do lado dos outros anjos de sua mesma espécie espiritual. Então, sentei-me meio distraído, olhando ainda na mesa para ver o que aqueles espíritos decidiam sobre a Terra, quando olhei de lado e quase cai do banco. Sentado ao meu lado estava um homem com bela roupa acetinada e na cabeça um pequeno chapeuzinho vermelho. Eu o reconheci, mas olhei em suas mãos e em todo seu figurino e não consegui achar nenhum dos seus adornos de ouro. Achei que não era quem eu pensava ser. Não resisti e perguntei seu nome para ter certeza.
    _ Me conheceram como “De Labore Solis” em nosso mundo-disse o homem.
    Lembrei-me então de ter ouvido falar de tal homem relacionado às profecias de São Malaquias. Foi um homem justo e que viajou pelo mundo pregando a paz e o ecumenismo. Mas diante de tantas provações, não pôde abdicar da elegância e do luxo a ele reservado. Falhou em suas mais difíceis provações, talvez por ser ainda de uma atitude conservadora ou por existir forças ainda maiores que lhe comandavam as decisões. Mas ali estava em espírito, aquele homem que tantos reverenciam.
    O julgamento continuava e de vez em quando dava para ouvir alguns trechos, que nos aterrorizavam, pois, éramos platéia e artistas daquela trama toda. Fiquei pensando em toda aquela gente que passava fome e acabava se corrompendo diante da miséria, pessoas que nunca ouviram falar de religião, ou às vezes, até de Deus. Será que todos necessitam passar por estas hecatombes do final do século vinte?
    _Isto é uma farsa! Eu não acredito que Deus depois de ter construído todo este maravilhoso orbe celeste, desejaria destruir por causa de nós humanos-falou um homem também sentado próximo a mim.
    Quem é você? Não está vendo que é tudo verdade, que é o fim da Terra e de seus homens orgulhosos?- perguntei mais pelo medo do que pela indignação.
    _ Eu fui Tomé, o que duvidou e sempre duvidará. Não encontrei no mundo algo que me fizesse deixar minhas convicções para acreditar em coisas incertas.
    _ Você não esteve com Jesus? Isto não basta? Ver sua vida e seus milagres de nada adiantou?
    _ Nada adiantou! Houve milagre, ressurreição de Lázaro, crucificação e o mundo tornou-se pior do que estava. No mundo eu não aprendi nada tão grandioso para vencer minhas superstições
    Jesus olhando lá da mesa de julgamento falou à Tomé com um tom forte de voz:
    _ Tomé! Você ainda não aprendeu que existem coisas inexplicáveis à limitada percepção humana. Veio tantas vezes à Terra, descobriu coisas inexplicáveis, construiu inventos que levaram o homem viajar pelo espaço, descobriu o uso da eletricidade, das energias nucleares e ainda não acredita nas coisas do céu? Se não entendes as coisas da Terra como irá entender as coisas do céu?
    O julgamento havia parado, pois, alguns dos anciãos queriam fazer um lanche antes da conclusão do plano final. Nisto, os anjos que me trouxeram, foram para perto de mim, com um ar de seriedade nas faces.
    _ As coisas não vão muito bem. Os anciãos resolveram que a maioria dos homens devem ser tragados pela ira divina. Já não existe uma forma de controlar o carma adquirido por eles. São tantas atrocidades que o diabo e sua legião de demônios estão até aumentando o espaço em Dite, a metrópole do inferno. Se você acha que a China tem gente, precisa então conhecer Dite.
    Mas não existe uma forma de contornar a situação?
   _ Sim, Jesus teria que voltar à Terra e explicar mais uma vez tudo o que o homem deve entender, e desta vez, não ocultar nada, falar abertamente para ver se pelo menos alguém entende.
    _ E por que ele não volta?
    _ Trauma. Jesus ficou traumatizado da última vez que veio à Terra. Não acreditava que as pessoas eram tão imbecis a ponto de quererem destruir o próprio planeta, o que hoje está conseguindo gradativamente. Viu o homem construir o avião e acreditou que seria benéfico o ser humano poder voar. Porém, chegaram as guerras e tudo se transformou em armas. Vi a descoberta da energia atômica e acreditou que desta vez o homem iria dar um grande salto em sua evolução, usando energias para o benefício de todos. Então vieram as guerras e bastou duas únicas explosões para que o mundo caísse em desgraça, voltando ser a mesma humanidade cheia de ódio e rancor que vive desde os tempos de sua crucificação. Em síntese, acredita-se que mesmo que seja pregado novamente palavras de paz, a humanidade seguirá sua mente cheia de egoísmo, deixando que a justiça divina se encarregue da sua evolução desarmonizada e infeliz.
    _ Mas na Bíblia, ele diz que voltaria para nos ajudar. Para mostrar o caminho verdadeiro a todos. Não devemos acreditar nisso?Nas profecias vindas do alto?
    _ Ele nunca os abandonou. Esteve entre os padres jesuítas que salvaram índios da morte. Esteve entre alemães que se esforçaram para salvar judeus do holocausto. Do lado de Gandhi quando este enfrentou o governo inglês. Entre os americanos que perderam a guerra do Vietnã. Sempre esteve presente de forma sutil para que o homem andasse com seus próprios pés. Agora resolveu por tudo nas mãos de seu Pai e obedecer-lhe as ordens. E pelo que me parece, o fim está próximo.
    Soaram as trombetas e novamente os anciãos entraram na sala e logo depois o Diabo, que estava com a boca cheia de macarrão e na mão, um copo de aguardente, dizendo que haviam dado a ele numa encruzilhada para que amarrasse o casamento de uma beata com o padre da igreja da comunidade que ela freqüentava.
    _ Estes humanos fazem cada coisa. De domingo a beata vai à missa para reparar nas pessoas que ali vão. Depois, vai se confessar com o padre aproveitando para lhe contar os seus desejos mais picantes. De sexta feira, vai para a encruzilhada oferecer porcariada para o Exu. O padre, por sua vez, adora quando tem na primeira fila uma fiel de saia para olhar sua calcinha. Adora o confessionário, onde pode ouvir a vida de todo mundo e tirar vantagem do que sabe. Sua missa é uma farsa. É o lobo vestido de ovelha. Eu adoro quando agem assim, é nestes momentos que vejo meu império crescer-falava o Diabo, olhando para um dos demônios que estava com ele.
    Fiquei com tanta raiva do chifrudo que resolvi dar-lhe um tombo. Quando ele passou perto do banco, estiquei o pé em sua frente, e ele distraído em suas vanglorias, espatifou-se no chão. Foi riso por todos os lados. Até Deus em sua fisionomia árdua, retirou um risinho daqueles que dizem tudo.
    Começou novamente o Julgamento e o veredicto sairia logo. Todos estavam pensativos, porém eu, estava ali não sei fazendo o quê. Resolvi querer espiar mais de perto, afinal, tratava-se também do meu julgamento. Fui sorrateiramente para perto da mesa, desobedecendo às ordens angelicais e quando estava passando perto de Judas, eis que o desgraçado também me passou o pé, caindo encima de Paulo, o apóstolo, que estava sentado perto de Jesus.
    _ Eh gentinha medíocre!- falou Judas, sabendo que foi eu que havia passado o pé no Cão.
    _ O seu filho da... Estava eu dizendo quando Paulo meteu a mão na minha boca.
    _ Caro irmão, aqui não se deve dizer palavras de tão baixo escalão. Lembre-se que Judas é um irmão que se desviou de seu caminho-falou Paulo com uma voz suave, que eu quase adormeci em seus braços.
    _ Mas pode voltar ao seu lugar que já está pegando mal você no meu colo-falou novamente, me levantando do seu colo e me empurrando para que eu voltasse ao meu lugar.
    _ Mas por favor, eu gostaria de participar deste julgamento. Eu também faço parte do réu. Eu quero me inocentar frente a vocês-falei tentando dar um jeito de escapar da ira divina.
    _ Se é tão bom assim então se inocente. O que você fazia quando à noite pulava o muro da vizinha?- falou Pedro, querendo me ferrar.
    _ Bem, isto não vem ao caso-falei meio sem encontrar palavras.
    Pedro olhou para mim e deu um risinho sarcástico, querendo dizer: “te peguei seu trouxa”. Isto me deixou irritado, no que lhe dei o troco.
    Pelo menos nunca neguei, neguei, neguei ninguém.
    Então Pedro se enfureceu e levantou-se da cadeira. De pé Pedro era bem maior. Tinha quase dois metros de altura e uns cento e cinqüenta quilos. Lembrei-me na hora de uma forma de lhe conter.
    _ Lembre-se Pedro! Quando alguém bate numa face, você deve dar a outra-falei olhando para Jesus, que sorriu e olhou para Pedro, que se sentou olhando para mim com vontade de me pegar.
    _ Sente-se aqui Homem-convidou-me o próprio Jesus que materializou uma nova cadeira para que eu sentasse.
    _ Eu acho que não devo sentar, eu não sou digno.
    _ Cacete! (nisso caiu um trovão). Primeiro vem bisbilhotar e atrapalhar o Julgamento e depois diz que não é digno! Vai pro inferno!- falou exasperado o Diabo, querendo que o Julgamento terminasse logo, já que estava levando vantagem.
    Jesus então me puxou e colocou na cadeira me pedindo que colocasse meu ponto de vista. Então me preparei, pedi ao meu anjo da guarda que me desse inspiração, pedi à Jesus, à Virgem santíssima. Só não pedi à Deus, que continuava carrancudo. Querendo terminar logo o Julgamento.
    _ Senhores! Olhem para aquele espírito que está no fim da mesa do lado esquerdo. Vejam dentro dele a ignorância primordial. Ele tem o conhecimento intelectual devido aos anos que se passaram. Mas eu vejo dentro dele mais um ser perdido, sem saber o que faz, não tendo consciência do mal que faz para si e para os outros. Enquanto seus irmãos dirigiam as coisas mais difíceis do Universo, este preferiu ficar pensando em que podia fazer de vingança contra Deus e os homens. Enquanto Jesus mostrou o caminho de um novo mundo rumo à evolução, o Diabo preferiu levar a maioria para julgamento. Isto tudo porque? Pura ignorância. Falta de entendimento do que é o mundo. Não entende que o mundo é uma obra de arte, uma obra de amor. Para ele, isto tudo é forma de poder. Poder o quê? Desafiar as ordens estabelecidas? Vencer os egos mais fracos? Escravizar? Até quando? Mal sabe o tolo que o maior escravo é ele. Escravo de suas convicções, de seus dogmas imutáveis. Mas até quando? Um dia ele verá que todas as suas convicções, todo seu poder, seus dogmas, seu domínio mental, todo mundo criado através de sua mente diabólica o levou por um caminho insípido e sem emoção. E o pior, vai perceber que na realidade está ajudando outros seres evoluírem através de seus erros. Quanto mais o Diabo erra mais os homens aprendem e evoluem. De tão mal que o Danado quer ser, acaba se tornando bom. Então se uma criatura como esta, que ajuda sem saber que ainda tem chances de elevar o Universo para um novo patamar, o que se pode dizer da humanidade? Esta humanidade que em sua maioria é ignorante e sem intelecto. Não tiveram a chance de poder pensar com os espíritos mais altos. Então se aliam aos mais baixos, que dizem que o lucro é mais importante que a miséria, que passar a perna em alguém para subir na vida é mais importante que o amor, que as guerras são mais importantes que a paz, que as religiões são mais importantes que o ecumenismo. Esta humanidade sofre em seu âmago. Não conseguem enxergar o amor que se encontra escondido dentro do peito e têm vergonha de procura-lo e demonstra-lo. São os mesmos que crucificam você, Jesus. Os mesmos que deixaram de acreditar em você, Lúcifer, e me você, meu Senhor. Desculpem-me a intimidade com todos vocês, mas os humanos ainda são os mesmos para quem foi pedido que o senhor os perdoasse, pois, não sabiam o que faziam e ainda estão longe de compreender como é o andamento do Universo. Por tudo isso eu peço em oração à Deus, ao Cristo, à todos os espíritos puros. Perdoe nós homens, perdoe o Diabo, pois ainda não sabemos o que fazemos-terminei eu, desabafando meu peito angustiado.
    Depois que terminei de falar houve um silêncio enorme na sala. Alguns cochichavam. Olhei para o diabo e ele olhava me fulminando com os olhos. Achou que eu o estava insultando. Olhei para Paulo, e este, estava de cabeça baixa em oração. Então Deus falou:
    _ Vá para seu lugar! Agora a coisa é conosco.
    Saí meio com a perna bamba, tomando cuidado para não levar nem um trupicão e sentei-me ao lado do famigerado “ De Laboris Solis” novamente. Ele me abraçou e me pediu perdão, e eu, lhe beijei as mãos.
    Novamente os anciãos, os apóstolos que faziam parte da mesa, os espíritos puros, Jesus, o diabo e Deus, juntaram-se para decidir os últimos planos. Vi quando saiu pela porta da cozinha celestial uma linda mulher. Não que ali não havia nenhuma. Mas aquela tinha algo mais que uma mulher. Era angelical, doce e simples. Estava vestida com uma linda túnica branca e pisava mansamente pelo chão. Aproximou-se da mesa e chamou Jesus.
    _ Não posso agora mãe! Estamos decidindo qual será o futuro do mundo- falou Jesus passando a mão suavemente sobre a barba.
    _ Mas Jesus, o que é mais importante que ajudar a mãe fazer os preparativos para o Natal? Você sabe que todos os anos eu gosto de sair pelo mundo espalhando poções de amor para a humanidade-falou a mulher, que agora eu sabia que se tratava de Maria.
    _ Não mãe, nós decidimos que não haverá mais Natal e nem humanidade. A coisa ta tão complicada que não adianta gastar mais tempo e espaço para treinar a humanidade. Nós vamos destruir tudo e recomeçar tudo de novo, deste modo, não deturpa as profecias que diziam que haveria um novo mundo.Haverá, mas com um novo homem.
    _ Ah, mas que besteira! Quantas vezes Deus já falou que ai destruir a humanidade e voltou atrás Nessas idas e voltas sempre conseguiu ajudar grandes homens evoluírem. Veja a história! Depois que você veio, vieram homens sábios que ensinaram a humanidade. É certo que houve grandes homens e grandes vitórias da humanidade. Eu garanto que se houvesse mais uma chance a humanidade compreenderia todos os seus erros-falou Maria, que agradou a maioria.
    _ Minha mãe, quantas vezes me amparou. Nas horas mais difíceis da minha vida você estava comigo. O que sugeres em sua atitude maternal, pois, nem o próprio homem, com seu pedido de clemência, não conseguiu dobrar a Justiça Divina-falou Jesus, querendo fechar o grande livro que estava em sua mão.
    _ Ora meu filho sabe que o céu deve ser clemente com suas criaturas. Eu como mãe, esperei por nove meses de gravidez, com dores e náuseas, às vezes cansada, às vezes com medo. No final da gravidez dei a luz. A luz divina que de mim nasceu iluminou o mundo. Se depois do sofrimento veio a sua luz, depois do sofrimento humano virá a luz-disse Maria, me deixando feliz com a demonstração de amor.
    Jesus foi até Deus e lhe cochichou no ouvido. Então vi que sua fisionomia havia mudado, estava mais radiante. Talvez necessitava de um toque feminino para tirar-lhe de sua indecisão. Ali estava Deus novamente cedendo à humanidade uma chance de se livrar do mal eterno.
    Jesus voltou e anunciou que a Justiça Divina havia chegado num acordo. Soaram as trombetas e um dos anjos que me acompanhava, veio e anunciou a todos o veredicto dado por Deus.
    _ Deus, supremo juiz de toda criação resolveu dar mais uma chance para a humanidade-enquanto o anjo falava, as pessoas que estavam nos bancos festejavam de alegria. E o anjo continuou-Haverá mais uma chance para a humanidade. Um dos homens voltará à Terra em espírito, deverá procurar alguém que o incorpore e pelo uso da psicografia dirá tudo o que foi dito aqui em cima. Jesus escolheu um entre os homens para concluir este trabalho-terminou o anjo de pronunciar o veredicto e saiu. Todos se indagavam quem seria o homem. Em meus pensamentos achei que seria “De Laboris Solis” ou Tomé. Foi quando Jesus veio à frente falar.
    _ Chegamos a este veredicto e o homem escolhido para voltar como espírito e psicografar esta historia de salvação foi você-apontou Jesus para mim.
    _ Eu! Porque eu?- indaguei assustado.
    _ Você foi o único ser humano que pediu clemência a Deus. Se queres clemência, volta lá e fale aos homens o que deve falar-terminou Jesus curto e grosso.
    _Eu e minha boca grande. Não podia ter ficado quietinho ali e ouvir o julgamento como os outros panacas que ouviam e não intervia em nada? Agora estava eu incumbido de voltar à Terra e psicografar esta história para algum médium e ainda por cima agüentar o Diabo e Judas me atrapalhando, instigando pessoas acharem estar possuídas por demônios em igrejas evangélicas, onde pregam que espiritismo é coisa do demônio.
    _ Bom, esta é minha história, do início ao que pensava ser o fim. Agora, necessito que vocês aí deste lado acreditem nesta história ou talvez amanhã vocês não estarão mais vivos e eu, dependendo de vossa decisão, terei que agüentar o mau humor do diabo nas regiões infernais.