quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O PÁSSARO E O AVIÃO








O PÁSSARO E O AVIÃO


    Meu nome é Pompo, segundo meus ancestrais é um nome antigo originado na Grécia em homenagem ao deus Mercúrio, o Psichopompos, o condutor de almas, ou ainda, o deus mensageiro de Júpiter, que traz à Terra os mandamentos em Lei que a divina providência nos coloca à mercê. Mas como somos pássaros, não estamos tão sujeitos à Lei quanto a humanidade com seus desregramentos e desequilíbrios.




    Mas vamos à história.
    Era um dia ensolarado e cheio de nuvens, as quais, eu atravessava para sentir o frescor de suas gotas minúsculas, molhando o corpo para refrescar a longa viagem pelo território que eu estava acostumado passear em busca da minha alimentação. Esta alimentação mudou muito através dos tempos. Lembro-me que havia árvores e uma vasta vegetação de capim e sementeiras. Depois vieram outras árvores que a humanidade plantou. A chamaram de café. Experimentei mas não apreciei aquela frutinha adocicada.


    Depois do café, os humanos começaram criar ninhos de barro e se ajuntarem formando grandes sociedades humanas. Não satisfeitos com seus ninhos de barro pequenos, iniciaram a construção de enormes ninhos, às vezes, um em cima do outro. Outros ninhos enormes utilizavam para guardar os alimentos. Percebi que os humanos mudaram muito e mudaram também a paisagem que eu estava acostumado ver. De início, me lembro que eles andavam à pé ou escravizavam algum animal para servi-los de transporte. Havia alguns que moravam com a humanidade e eram alimentados por eles. Foi com esse intuito que nós pombos nos aproximamos da humanidade, afinal, nossa alimentação foi sumindo com o tempo e tivemos que acostumar com o que a humanidade comia e com algumas comidas à base de sementes moídas que os humanos chamam de ração. Mas parece que eles usam um outro tipo de ração que transformam em outras comidas como num passe de mágica.




    Depois da escravidão animal, percebi que eles resolveram criar animais de materiais tirado da terra. Construíam animais de ferro e outros minerais existentes. Estes animais eram bem mais fortes que os conhecidos. Andavam bem rápidos e a humanidade podia entrar dentro deles por uma boca geralmente lateral, parecida com as guelras dos peixes. Estes animais viviam à base de uma alimentação feita somente de um suco fétido e forte. Fiquei sabendo que muitos dos nossos irmãos beberam este suco para experimentar e morreram.




    Depois desses animais, construíram outros maiores e como se não bastasse criaram um enorme pássaro barulhento e veloz que viajava pelos ares e desaparecia no horizonte. Foi um desses grandes pássaros que me engoliu. Não abriu a boca, apenas uma de suas guelras perto da asa. Eu passava perto para tentar conversar e quando vi, estava dentro de sua barriga.




    Seu corpo era enorme e muito quente. Vi humanos conversando e sorrindo. Falando de um tal de “dólar”. Pelo jeito deve ser o deus deles agora, já que falavam dele com muita emoção, dizendo que uma hora subia e outra hora descia. Mais à frente, havia dois humanos brincando com o som do vento dentro de um instrumento de cordas. Eu achei lindo o som do vento ali dentro, mas quando o humano começava cantar dava dó. Que sons horríveis e destoantes saiam de sua boca.




    Nesse meio tempo, quase esqueci que estava dentro do estômago do bicho. Precisava arrumar um jeito de sair dali. Olhei para o fundo dos seus intestinos e ouvi barulho de animais, então resolvi ir para lá, talvez fosse a saída, o ânus do grande animal.
    Quando me aproximei do barulho, vi que estava errado. Era uma parte do intestino que havia só animais. Todos estavam presos em cadeias, daquelas que os humanos prenderam muitos de nossos ancestrais. Olhei e vi um papagaio, um pombo como eu, um cão e um sabiá. Vinham numa conversa contínua, um querendo falar mais que o outro. Resolvi então, entender a situação em ocorrência ali.
    Aproximei-me e todos me olharam com espanto.





    _ Porque você está solto? Você não é escravo dos humanos?
    _ Não eu vivo livre, mas de certa forma sou escravo de seu mundo. Alimento-me e uso de seus alimentos para sobreviver.
    _ Como pode viver fora da gaiola. Jamais entendi a vida fora da gaiola. É verdade que existe vida fora da gaiola?- perguntou o Sabiá.
    _ Ora se existe! Eu vou para onde quero e para onde eu possa me alimentar - respondi.
    _ É um tolo! Acha que já viu tudo. Aposto que não conhece os mundos do outro lado do mar - falou o pombo correio.
    _ Não cheguei a tanto, mas sou livre para ir onde quiser e como quiser-respondi.
    _ E daí? O que você aprendeu nessas andanças? A humanidade está aqui para nos ensinar. Eles são os nossos deuses! - falou o papagaio.
    _ Ensinar o que, seu papagaio besta! Você acha que falar, remedando-os, é ser como eles? Este seu modo de dizer as coisas sem saber o que está falando é pura idiotice - falou o cão que estava impaciente em sua jaula.
    _ Um aprendeu remedar as palavras humanas o outro aprendeu o vício humano. Qual será o pior? - falou o pombo correio.
    _ O que o papagaio copia? - perguntei.
    _ A humanidade acha bonito ter um animal preso em sua casa repetindo suas ladainhas e seus palavrões. O que um papagaio pode entender da vida? De se conhecer? De evolução?
    _ Talvez a busca por tornar-se semelhante ao homem o faz superior a nós - falei humildemente.
    _ Besteira! Eu conheci mais a humanidade que todos vocês juntos. Conheci outros mundos e outros tipos humanos. Uns eram grandes deuses, outros não se distanciavam tanto de nós. Eram mais medíocres que uma galinha - falou o pombo correio.
    _ No entanto está preso aqui também - falou o cão.
    _ Mas eu fui muito importante. Transportei mensagens pelo mundo, auxiliei nas guerras humanas, trabalhei quando o homem ainda não tinha o grau de civilização que tem hoje. Conheci lugares longínquos, costumes diferentes, humanos diferentes. Hoje, estou aqui nesta gaiola como prêmio da minha servidão. É a minha aposentadoria.
    _ De que adiantou você rodar o mundo, saindo e voltando para sua gaiola a vida inteira se agora continua dentro dela, achando ainda, que é um premio de gratidão. Você está louco. Mais louco que eu, que passei a vida inteira cheirando cocaína dentro de aeroportos, sendo treinado desde criança a cheirar o tal pó, que entrou em meu cardápio diário. Hoje estou viciado em coca e passo mal quando fico sem. Os humanos às vezes esquecem que me viciaram e me deixam dias sem minha droga. Continuo preso nessa jaula e continuo viciado, esperando a vida acabar nesta aposentadoria forçada, já que de um tempo pra cá até meu faro eu perdi. Viciei-me servindo a humanidade e aprendi que tudo não foi em vão, mas continuo preso até minha morte. Quem sabe então encontrarei o céu dos cachorros -discursou o cão.
    _ É muito bonito chorar as pitangas, mas eu não necessitei da nada dessas grandes descobertas. Nasci e me criei dentro da minha gaiola e conheci diversos ligares de dentro dela, mas não me atrevo a sair daqui para viver uma luta contra o mundo. Ter que procurar alimentos, ter que trabalhar para viver. Prefiro estar dentro desta gaiola e usar apenas meu talento para música fazendo com que a humanidade me dê alimento.
    Neste momento ouvi um barulho na porta daquele lugar e enquanto um homem entrava consegui fugir para um outro lugar. Lá ouvi dois homens conversarem entre si. Falavam dos animais que ali estavam e o fim que teriam. Todos pertenciam a uma tal de família X. Segundo o que diziam, todos iriam ser mortos num matadouro de animais órfãos, já que havia acabado a guerra e não necessitavam enviar mais mensagens secretas através do pombo correio. O papagaio era usado para guardar informações importantes. Era treinado para repetir tudo o que lhe diziam em código. Como sabia coisas demais, acharam melhor mata-lo também. O cão foi treinado para trabalhar nos negócios da família, que além de estar dentro da guerra, lucrando obviamente com isso, se utilizavam da influência para traficar cocaína. O cão também iria morrer para ninguém saber do seu vício. E o Sabiá, como ninguém quis ficar com ele e nem ter o trabalho de lhe alimentar, decidiram elimina-lo também.
    Percebi que o tal pássaro abriu uma das guelras e as pessoas começaram sair de lá de dentro. Aproveitei e me mandei também, antes que o bicho tentasse me digerir de verdade. E esta é a minha história meus filhos, espero que não se iludam pelo poder atrativo das gaiolas. Sua alimentação é fácil e a mordomia de nada fazer da vida é aconchegante, esta é a tendência animal de se fazer escravos por uma simples atitude de agrado. Dizem que o Diabo também agradou Adão na época do paraíso. Sejam pássaros felizes, livres de desejos fáceis e só assim estarão bem longe das gaiolas.

domingo, 2 de dezembro de 2012

ABRINDO OS PORTÕES



ABRINDO OO PORTÕES

Como se libertar de uma prisão, quando estamos gostando daquilo que nos prende? Como deixar de amar aquilo que nos é tão caro?- assim ia eu pensando, caminhando por uma das áridas ruas de dentro da enorme prisão. O gosto do sangue enchia minha boca de saliva e o cheiro, o calor daquele lugar, causava um sentimento irresistível de ficar por ali. Para onde eu iria agora? Como fugir daquele lugar? Os ferrolhos estavam muito bem fechados, porém, não havia ninguém me vigiando. Quem sabe escalar os altos muros de Herakleópolis?
_Não meu filho, nada adiantará você tentar abrir os ferrolhos ou escalar os altos muros se não estiver pronto para isso. O mundo é como a lâmpada de Aladin e todos seus desejos são realizados, só se deve saber como pedir ao gênio da lâmpada.
_Não entendi o que você quis dizer. Quem é você?
_Isso não importa agora. Tudo tem seu tempo. O momento pede que você procure o deus que está escondido dentro do seu coração, a luz que brilha mais que as trevas deste lugar. Este deus que habita em você consegue abrir os ferrolhos dos portões, não só para você passar, mas, para muitos outros que queiram te acompanhar.
_Como encontrar este deus? Onde olho, vejo a penumbra se estender em todos os corações e as pessoas entram nos seus casulos esperando que algo do lado exterior faça o milagre por eles. O que devo fazer para despertar o deus?
_ Se você coloca uma barra de ferro encostada na parede e a deixa ali por anos, sofrendo os poderes na natureza, esta barra ira se enferrujando até se dissolver. Se você constrói um castelo, quinhentos anos no futuro ele será apenas ruína de um monte de matéria decrépita. O seu corpo perde o vigor da juventude, seus olhos já não enxergam, seus dentes já não mastigam, suas pernas já não andam. Então pense! Qual a razão de correr atrás de tanta coisa temporal? Coisa que existe enquanto você existe, coisa que amanhã pode não existir mais, ou coisa que fica enquanto você vai embora.
Quando você percebe que sua vida está passando a cada dia, e você na realidade, não está fazendo nada a não ser correr atrás de coisas deterioráveis, se esquecendo que o mundo é um constante mudar, então, percebeu o que seu deus interno quer mostrar. Enquanto seus olhos forem atingidos pela penumbra do mundo, não conseguirá enxergar a luz que irradia do seu coração, querendo mostrar o amor que vive ali, que quer transbordar e ungir todos os que tiverem o desejo de unção.
_Qual a finalidade de se seguir esta luz?
_ Ora, a finalidade da luz é o amor, é a bondade. A luz aqui é tida como purificação dos seus desejos impuros, seus pensamentos impuros, seu agir impuro. A luz apenas ilumina o caminho da escuridão que cada um se encontra, não importa se é cético, fanático, religioso ou ateu. Todos têm seu deus dentro de si e buscam por um ideal. O ideal pode ser puro ou impuro. O que purifica sempre leva as pessoas aos braços da harmonia. O impuro é o que causa a desarmonia. Existem os que adoram violência. É um fato comprovado em todas as épocas do mundo. Entre estes, sempre surgiram aqueles que se destacaram pela sua pureza e harmonia. Todos admiram os grandes iluminados. Admiram, mas preferem ser impuros.
Levante-se! Erga-te! Olhe para a luz e busque-a dentro de si, e, quando conseguir enxergar a sua luz, verá que existe luz em todos. Só deve ser descoberta para depois brilhar.
ACREDITE EM SI MESMO, O PODER DA VONTADE REMOVE OS OBSTÁCULOS!!!

sábado, 29 de setembro de 2012

O MANGAKA



O MANGAKA

Na minha adolescência sempre viajava para a cidade natal do meu pai. Cidade pequena, enfiada no meio dos morros, Ribeirão Bonito era um paraíso, com seus riachos e muito mato para dar um passeio e explorar seus morros cheios de pedras e animais silvestres.
No carnaval, eu sempre migrava para a pequena cidade, fugindo da festa mais popular do Brasil, que para mim era e ainda é, apenas um feriado prolongado e bom para viagens.
Foi num destes carnavais que conheci Seu Dito, um senhor negro, solitário, que morava ainda numa casa de barro na beira dum riacho. Lembro ainda hoje de seus olhos grandes e esbugalhados, sentado na porta da casinha fumando seu cachimbo feito de bambu.
Um dia passando por lá, avistei Seu Dito consertando sua tubulação de água toda feita de bambu. Achei interessante a sua engenharia e fui conversar com ele, como bom curioso que sou. Com o tempo ficamos amigos e numa de nossas conversas lhe disse que não gostava de carnaval.
_Eu tamém não - falou cortando fumo do rolo pra fazer um picadão- minha história é muito triste.
_Triste? Porque Seu Dito?
_Tem a vê cum uma paxão de mocidade qui mi acompanhô inté hoje.
_Verdade Seu Dito? Então deveria ser uma moça muito bonita.
_Si era. Era a mais bunita da redondeza.
_E o que aconteceu então Seu Dito?
_O Mangaka levou ela.
_Mangaka? O que é isto?
_O Mangaka é um bunequinho que usa na macumba. Ele tem vida. O Exú dá vida pra ele. Intão ele faiz os pidido que a mandinga pede. Aí enfia um prego no buneco com o pidido e ele faiz - terminou de falar e fez o sinal da cruz.
_Mas como que foi isso Seu Dito?
_Eu morava numa fazenda in casa di barro. I ela morava in otra mais perto da cidade. O nome dela era Maria Soledade. Nóis se conheceu num carnavá i num respeitamu o dia de cinza. Intão otra minina cum inveja dela. Eu era um home bunito. Entrego o nome dela na mandinga pra cabá cum ela. E foi assim. 
O  Mangaka veio e pego ela. Levo num sei pronde. Eu precurei inté no cimitério e nada. E num dia de lua cheia, ouvi barúio na porta e abri com isperança di sê ela. Mas quem eu vejo? O tar buneco in pessoa. Tinha uns dois metro e cheio di prego ispaiado no corpo. Cada um era um pidido realizado. Ele entro in casa e desde intão só me disgraça a vida.
_Mas ele não foi embora Seu Dito?- indaguei espantado.
_Não, tá aqui inda- apontou pra dentro de casa com a ponta do cachimbo - o Exú gostô daqui e ficô. Qué vê?
_Dá pra ver ele Seu Dito?
_Dá. Agora ele é buneco di novo. Só vorta virá sombração si alguém 
acordá ele. Ai ele realiza a mandinga.
_E o senhor nunca pediu nada seu Dito?
_E tu fazia um pidido pro Exú?
_E agora. Faria eu um pedido? Acordaria o Mangaka...de seu sono de zumbi?

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

AMOR E PAIXÃO


                                                   


    AMOR E PAIXÃO


    Naquele inverno tresloucado e equatorial, onde às vezes faz frio que seca o ar cortante e cambaleante pelo vento. Estava aquela menina, rapazola, virgem, sentada à beira da estrada, esperando que a monotonia do quotidiano lhe trouxesse juntamente com o vento, o ser amado que tanto esperava.
    Todas as tardes era a mesma coisa. Sentava-se numa pedra à beira da estrada, pegava seu espelho e sua escove de cabelos e se penteava, tal como uma gata se lambendo e se purificando dos ares poluídos da redondeza.
    Era uma menina linda, morena, com os cabelos compridos e brilhantes, seus cachos desciam pela silhueta de seus contornos como as ondas do mar lambendo a areia, deslizavam e avolumavam seus seios fartos e belos. A pureza da menina não era somente o seu corpo. Pensava puramente. Pensava em poesia, em príncipes encantados, em finais felizes, em sonhos lindos. Sonhava com coisas sempre felizes.
    Ao contrário do que muitos podem estar esperando, esta não é uma história de final trágico ou triste. Mas uma história feliz, misturando amor e paixão, falando de pureza e da realidade infinita. Todos geralmente esperam que a menina sofra desilusões, que seus sonhos se tornem frustrados. Porém, sua realidade se transforma, não sei se devido à sua pureza ou se, como dizia o Antigo Testamento: “Os deuses gostaram das filhas dos homens”.
    Ali, sentada sobre a pedra à beira do caminho, a menina tornou-se mulher e um dia por ali passou o seu derradeiro príncipe. Vinha ele em seu cavalo feito um Dom Quixote, sendo herói para quem o via como tal. Um rapaz elegante e forte, da altura que todas mulheres sonhavam. Sua musculatura era de um deus olímpico, que em seu cavalo assemelhava-se com Marte. Imponente sobre o cavalo olhava para as pessoas com desdém. Achava-se o herói dos heróis. No entanto, com apenas um olhar daquela bela mulher, foi-se a imponência. Enlouqueceu tal qual Dom Quixote e se prendeu nas grades do amor, assim como Marte ante o amor de Afrodite, mulher de Heféstus. Aquele pequeno olhar delicado e sensível encheu-lhe o coração de amor, retirando os pedaços de pedra que ali se encontravam. Num repentino esforço para acordar do sonho, o rapaz parou, desceu do cavalo. Na descida tropeçou tombando sem querer aos braços daquela bela mulher. Neste instante o herói descobriu que na realidade queria tropeçar naqueles braços, naquele leito macio adornado de pureza, com cheiro de amor e beleza, onde jamais quereria deixar de agora em diante. Faria moradia naquele coração, possuiria aquela alma. Sim, era um caso de platonismo disfarçado pelo ar de grande cavaleiro. Olhava aqueles olhos esperando alguma palavra, mas nada diziam aqueles, ao contrário, o olhavam com ternura e pureza ao mesmo tempo em que exprimiam espanto e vergonha.
    Enquanto o rapaz se perdia em seus devaneios, a menina sentia que seu momento tão esperado havia chegado, seu príncipe encantado a encantara. Eram sortilégios, magia, hipnose. Nada se comparava à plenitude daquele amor.
    O nome dela era Aédon, filha de um pintor que havia imortalizado reis e sábios de vários cantos do mundo. Em suas telas havia roubado a alma de várias pessoas que terminaram por se encantar com a semelhança da imagem. Era um deus. Ao contrário do conto grego, seu amado Politécne, era um guerreiro e sabia apenas da vida em cima de seu belo cavalo Félix.
    Mas o destino foi generoso ao casal e o cupido estava à espreita e quando os pequenos olhos negros da bela Aédon cruzaram os olhos verdes de Politécne, houve a união do homem, foi o retorno ao Paraíso.
    Os dois se conheceram, se amaram, se apaixonaram e se uniram. Uma união que jamais houve em tempo algum e em momento algum da história, em nenhuma terra, nenhum planeta. O amor platônico era irônico perto do amor e da paixão daqueles mortais, que viviam felizes pela simples condição de se conhecerem e se amarem.
    No céu, os deuses olhavam com inveja aqueles filhos de homens. Irritados com a demonstração de infinita paixão, decidiram interferir no amor do casal. Lançaram então o poder da discórdia para separa-los, pois tudo que existe em favor do amor e da paixão é considerado subversivo para os deuses, que nos invejam, porque conseguimos ser mais felizes que eles, e porque comemos o fruto do bem e do mal e vivemos o amor eterno. A inveja foi tanta que nos expulsaram do Paraíso para não vivermos eternamente na felicidade, já que o primeiro casal era feliz e não necessitava de mais nada. Porém e inveja dos deuses causaram a ruína do ser humano. Mais ainda, hoje nos invejam porque conseguimos manter o amor ao semelhante, coisa que eles não conseguiram. Não conseguiram também, vencer a nobre força do amor de Aédon e Politécne, que continuaram seu grande amor, mesmo com a discórdia tentando dissuadi-los.
    Aédon se entristecia quando Politécne saia em viagens pelo mundo em busca de riquezas e fama, temia que pudesse surgir entre eles alguma deusa disfarçada para tentar destruir o grande amor. Politécne por sua vez, se angustiava em deixar Aédon com os filhos Adônis e Mirra. Mas, procurava uma forma de viver feliz, longe do dia a dia rotineiro. Não queria ser mais um Caim, viver no campo plantando sementes, regando plantas, açoitando bois e burros. Queria ouro e a fama, para poder expor o que na solidão de seu mundo não podia. Então decidiu procurar seu santo graal pelas estradas da vida. Aprendia mais e mais sobre o mundo e o poder oculto atrás deste seu mundo. Sabia que as coisas não eram o que pareciam, eram apenas ilusões que regiam a vida bestial do ser humano. A única coisa que tinha certeza de ser considerado verdadeiro era o amor que sentia por Aédon e a saudade que apertava em seu peito toda vez que parava para pensar.
    Distante dos braços de Politécne, Aédon se sentia insegura e procurava nos filhos o pedaço do amor que lhe era reservado. Politécne demorava dias para aparecer, para restaurar o vazio e a falta que lhe corroia o coração. Enquanto isso, os deuses se vangloriavam em conseguir deixar os dois distantes em seus ideais, se esquecendo um do outro. Com isso, tentavam colocar entre os dois a discórdia e o ciúme, sabendo que o coração sentimental com as coisas terrenas, certamente levaria os dois para a discórdia. Os deuses, cegos pelo orgulho de se acharem superiores, jamais percebiam que as sementes da discórdia ajudavam os homens ficarem mais fortes contra as investiduras dos deuses que pensavam apenas em ter a submissão dos homens.
    Politécne sentiu um frio na espinha e desejou voltar para o seio de sua amada. Pegou nas rédeas de seu velho amigo Félix, cruzou o mundo, enfrentou todas as tentativas que os deuses fizeram para tentar dissuadi-lo de seu caminho. Mas o amor entre Aédon e Politécne era mais forte que qualquer intempérie. Foi assim que Politécne voltou para Aédon. Ao vê-lo, Aédon correu até onde ele estava, esquecendo até os filhos brincando no quintal. Mas alguns deuses decidiram extermina-los para que não se gabarem do grande amor que sentiam um pelo outro. Transformaram todos em uma família de pássaros e os jogaram dentro da mais densa floresta.
    Hoje, os homens vêm de longe para ouvirem o canto da família de Aédon e Politécne. Quem nunca ouviu falar do canto do belo Uirapuru?

sábado, 15 de setembro de 2012

A CHACINA DA ÉTICA E DA MORAL


                                       A CHACINA DA ÉTICA E DA MORAL






      Um dia, num país onde não havia guerras e o seu povo vivia na felicidade eterna, surgiu um grupo de indivíduos que achavam que a vida moral do país estava estagnada e que seu país não seguia as velhas leis da barbárie, onde, aqueles que não contribuíam com a moral e a ética, eram presos e executados para que nunca mais caíssem em tentação.
      No meio daquele povo, originou-se um movimento que não acreditava na violência e fundaram então, os direitos da humanidade, onde a ética e a moral proibiam os semelhantes de se auto-agredirem.
      O tempo foi passando e os que fundaram tais leis perceberam que a sociedade feliz e sem guerras não tinha força para evoluir em sua moral e proibia àqueles que desejavam modificar o padrão social, de se manifestarem a favor da barbárie. Não sabiam tais indivíduos que sua descendência e os trejeitos que haveriam de copiar a contragosto mas gostando, haveriam de ser frutos da mesma barbárie condenada. Houve um impasse, porém, a ética e a moral local conseguiu acalmar os ânimos mais exaltados e aqueles que se exaltaram demais, foram convidados apodrecerem em algum hospício do país.
      Diante daquela felicidade eterna, as pessoas aprenderam que podiam encontrar falhas no sistema, tanto ético como moral. Procuravam nos maiores livros escritos pelos maiores escritores do país e descobriram que tudo se desenvolve como um novelo de lã, que se desenrola em fatos, e os fatos se desenvolvem na vida social, padronizando a sociedade com seus conceitos de ética e moral. Na verdade, tal país era todo desenvolvido através da ética e de sua moral, considerada altamente evoluída e tradicional.
      Mas alguns indivíduos criaram novas leis que burlavam as antigas, procurando tirar proveito para o pequeno grupo seleto. Designavam-se como grandes empresários, que empresariavam as falcatruas mais nocivas da sociedade, enquanto esta acreditava que seus próprios cidadãos eram mais nocivos à sociedade do que os que realmente eram.
      Enquanto o povo achava que vivia no paraíso, as falácias enganavam os mais desavisados, que neste país era a maioria.
      Houve tentativa de mudanças. Pessoas saíram pintadas nas ruas, alguns explodiram alguns carros, outros se fizeram de vítima, porém no futuro, o que era alfa tornou-se ômega.

       A sociedade foi evoluindo e os meios de comunicações criavam as cenas de ética e moral para servir de base à população enquanto aquele grupo seleto achava conveniente colocar mulheres nuas, casos de morte autoflagelação, para que o povo se achasse cada vez mais pútrido, não merecendo ética, nem moral. Afinal, tendo pão e circo, o povo permanece fiel às raízes. O grupo seleto sabia disso, tanto que a cloaca se abriu e em vez de expelir, engoliu a todos, esquecendo-se da ética e da moral.
      O grupo seleto ainda não estava contente com aquilo que proporcionava sua existência e resolveram então criar uma organização mundial contra e violência. O povo aplaudiu de pé. E enfim, o grupo seleto iria pensar em seus indivíduos, naqueles que não tinham condições de prestar-se à ética e a moral porque eram tão ignorantes que nenhuma escola daquele país poderia instruí-los. Não havia meio de Ter uma escola tão ética e moralizada que ignorasse os padrões éticos e morais do país.
       Passou o tempo e um entre o grupo de seletos conseguiu candidatar-se à presidência do país. O povo novamente aplaudiu de pé. Seus planos eram mirabolantes. Era a bêsta que todos esperavam. Um gênio escritor domava computadores, agricultura, carros blindados, tanques de guerra e adorava fumar. Em quinhentos anos, jamais havia aparecido alguém como a bêsta. Seu ímpeto militar, sua vida de playboy, preocupado com as questões sociais de ética e moral. O mundo estava a seus pés. Era como um Maomé, que em vez de ir à montanha, saía correndo pelo país e a montanha tentava alcançá-lo.
      Mas o tempo de ouro foi acabando. Como diz o ditado, tudo o que sobe um dia tem que descer. Assim foi com aqueles precursores de novos ventos. O mundo estava em decadência em sua aldeia global, mas a bêsta continuava dizendo que seu país ia de vento em popa. E o povo se marginalizava, burlando os padrões éticos e morais que tanto batalhavam para deixar transparecer. Mais e mais pessoas se prostituíam por causa das palavras da bêsta, que influenciava as pessoas por causa do seu jeito simples, seus gestos enérgicos e sua fala complicada, mostrando uma mistura de intelectual mentecapto com jeca tatu.
      Então um dia, algumas pessoas que há muito tempo não concordavam com aquele senso ético e moral, resolveram instituir investigações sobre o que realmente era ético e moral. Descobriram empresários, bicheiros, policiais, políticos, pessoas da televisão brancos, negros, homossexuais, machões, cachorros, extraterrestres, espíritos e até demônios, envolvidos na quebra da ética e da moral. Começaram uma longa investigação onde a cada dia aparecia um culpado maior que o do dia anterior, e foram quinhentos anos de busca inssessante, descobrindo milhares e milhares de pessoas envolvidas em coisas indignas e fora do padrão social. Até que se descobriu que todo mundo estava envolvido e o tal grupo seleto, já não era seleto, pois, todos os cidadãos do país faziam parte do grupo seleto. Todos de certa forma aceitavam o que a ética e a moral daquele país ditava. Considerando-se normal os erros que se transformavam em acertos, todos festejavam com alegria toda a perversidade instalada em suas leis. Roubavam, extorquiam, corrompiam seus menores, estupravam e formavam um novo padrão social, se achando um grande país. O país do novo milênio.
      As pessoas que investigavam, descobriram que até mesmo entre eles haviam corruptos que beneficiavam àqueles que pagassem bem. Como não surgiram provas o bastante para incriminar aqueles que estavam sendo investigados, terminaram as investigações com uma bela festa da pizza. Festa que já era de grande tradição naquele país. 

terça-feira, 14 de agosto de 2012

FORTUNA


                         


                                                                      FORTUNA

    Fazia muito tempo que eu não ia à Bienal em São Paulo. Naquela tarde, decidi ir pela minha terceira vez, para ver como estava o mercado literário nacional, que ainda é pouco acessível devido aos preços altos da obra final.
    O tempo ruim não deveria atrapalhar minha jornada. Decidi que poderia cair o céu que eu jamais voltaria. Continuei pela estrada do “diabo velho”, que é a tradução da palavra indígena Anhanguera. Parecia que o velho diabo realmente estava por ali. A chuva que caia era descomunal. Raios cruzavam o céu e a água se transformava em pequenas pedras junto com um vento que balançava o carro na pista. Não se via um palmo na frente da estrada com tamanha tempestade.
    Alguma coisa estava estranha. Parecia que a entrada da cidade estava diferente. Havia um ar negro encima de toda entrada da grande cidade. Olhei para o velho Tietê, que continuava como sempre. Um rio negro e morto pela podridão humana.
    Continuei seguindo pela marginal, foi quando vi uma placa escrita: Estige.  
    Estige?!?! – pensei. Não me recordo de conhecer tal lugar. Mas para onde eu olhava a mesma placa estava lá. Entrei por uma rua e avistei duas torres avermelhadas pela poluição. Pensei eu, era um grande templo que parecia esconder algo atrás de suas portas enormes. Detive-me por algum tempo em sua frente. Porém, decidi continuar meu caminho pela rua.
    Mais à frente encontrei um local adornado por uma luz amarelada, talvez, pelo tempo. Mas, achei que era um local onde podia parar. Olhei ao redor e já não conhecia nada ali. Onde estaria a Bienal? Aliás, onde eu estaria?
    Em frente havia um barzinho e algumas pessoas sentadas conversando. Decidi ir até lá.
    _ Poderiam dizer-me onde é a Bienal do Livro. Acho que me perdi com a chuva - indaguei as pessoas, mas não me deram atenção. Parecia que não me conseguiam me ver. Pensei em sair, quando fui abordado por uma bela mulher.
    _ Muitas vezes, as coisas não são o que parecem ser.
    _ Como? O que disse?
    _ Você não está onde pensa estar.
    _ Onde estou?
    _ Aqui vivem aqueles que não respeitam as regras e as leis do seu tempo, e assim, atrapalham as mudanças que este cautelosamente impõe ao mundo.
    _ Como assim? O que estou fazendo aqui?
    _ Tudo tem seu tempo e seu equilíbrio. Aquilo que achava que era rio, era a essência e a vida que alimenta esta grande cidade. É o acúmulo dos vícios humanos que formam este leito negro, que evapora e se transforma em grandes nuvens poluídas e em suas chuvas ácidas, espalhando o seu grande mal pelo pântano do Estige, onde está enfiada no meio do lodo toda esta humanidade injuriosa.  
    Você está aqui porque gosta disto também e porque deveria me encontrar. Eu sou a Fortuna, a Senhora do Destino. Diante de mim ninguém tem qualquer identidade. São apenas ingredientes do grande lodo negro. Insaciáveis em seus desejos devastadores e em sua ganância em devorar a riqueza. Mas não percebem os tais, que esta riqueza não perdura. Ela não é estagnada. Movimenta-se de um lado para o outro, de nação para nação, de raça para raça, de mão em mão. Uma mudança que ocorre mesmo contra a vontade e o esforço da humanidade. Vivo desde os remotos tempos. Muito antes de o homem nascer.
    _ Mas porque eu deveria te encontrar?
    _ Pra saber que este lodo pode ser vencido quando se percebe que a vida é uma constante busca daquilo que faz a humanidade feliz. Mas a felicidade pode ser enganadora se o lodo encobrir a verdade. As riquezas são consumidas pela felicidade e quando acaba gera o sofrimento. Já dizia um sábio antigo: O sofrimento existe e sua causa é esta busca pela felicidade. Mas a ilusão da Fortuna não dá a felicidade verdadeira. Para cessar o sofrimento é necessário vencer a fortuna, vencer o próprio destino através da visão do mundo ilusório e artificial que a humanidade criou.
    A realidade é o que você está vendo. O lodo a encobre e cria fantasias que a humanidade acha ser real. Talvez, no futuro descobrirão o intuito da vida e desta busca pela felicidade, e então, descobrirão que a felicidade está na forma como se vê a verdade nas coisas. Então eu, Fortuna, poderei encher a humanidade de riqueza e felicidade – terminou a bela senhora dizendo.
    Acordei naquele dia já de madrugada. Olhei no relógio já era outro dia. Das minhas mãos havia escorregado o livro que eu lia. Marcado no Canto VII do Inferno, da Divina Comédia de Dante Alighieri.

terça-feira, 31 de julho de 2012

O HUMANO E A ILUSÃO






   Era uma vez um Homem chamado HUMANO. Este homem chamado Humano vivia feliz e sem muitas preocupações com seu dia-a-dia. Cuidava de sua pesca e de sua caça, se alimentando também de frutas e alimentos do seu cultivo. Humano era muito feliz com sua vida, muito alegre com sua família e com seus amigos.
    Um dia humano caminhando por entre os bosques, observou um grande muro que o separava de outra região, na qual, ele nunca ouvira falar. Olhou para o muro íngreme e percebeu que se não houvesse uma porta jamais alguém conseguiria atravessá-lo, já que era muito alto e escorregadio. Tentou fincar pregos na parede do muro, mas o material não aceitava os seus pregos. Tentou fixar cordas e escadas nos altos muros, mas escorregavam e caiam. Resolveu então procurar por todo o muro uma porta ou uma entrada que desse para passar. Caminhou vários dias passando fome e frio, não tendo onde se alojar, pois, o muro foi se tornando a única construção diante de um grande deserto. Ao longe viu uma sombra se mexendo como que se estivesse a chamá-lo. Humano resolveu ir até onde estava aquele que o chamava. Chegando perto viu que não era uma pessoa e sim um ser parecido com um lagarto, meio humano meio animal, que lhe dirigiu a palavra:
    _ Olá homem. O que fazes em meu reino? Queres morrer de fome e de frio neste deserto?
    _ Olá ser estranho, estou à procura de uma porta para atravessar este muro, mas não sabia que havia um reino no deserto - falou Humano.
    _ Meu nome é Serpente, e meu reino parece um deserto, mas não é. Sente-se e coma o que puder. A estrada será longa e você deve se alimentar aqui em meu reino. Quem sabe se alimentando você não descubra a porta do muro?
    _ Senhor Serpente, também procuras a entrada do muro?
    _ Procuro a entrada, mas não gostaria de atravessá-la. Acredito que não foi feita para nós, não homens, o que está atrás deste muro.
    _Temerias entrar comigo pela porta do muro, meu amigo?
    _ Não é temor, mas eu acredito que estou aqui apenas para ajudá-lo na busca da porta, mas não posso deixar meu reino deserto, devo cuidar do deserto para que não fique deserto. Agora se sente, e coma o que quiser.
    Humano sentou-se e comeu de todas aquelas guloseimas dadas pelo amigo Serpente. Comeu coisas que nunca havia experimentado e estava pronto para encontrar a entrada. De repente olhou no muro e viu um buraco, era um minúsculo buraco que não dava para colocar nenhum dos dedos em seu furo.
    _ Serpente, existe um buraco no muro. Você percebeu isto?
    _ Vi este furo no muro e tentei olhar lá dentro, mas não enxerguei nada. Minha visão é muito turva e se atrapalha com as imagens que vem lá de dentro.
    Então humano decidiu olhar pelo buraco. Eis que viu um jardim todo verdejante e no meio do jardim uma tabuleta com estes dizeres:
    “Grite seu nome o mais alto que puder!”.
    Humano não pensou duas vezes. Ergueu-se e gritou com todas as forças do seu pulmão:
    HUMANOOOOOOOOOO!
    Neste momento uma parte do muro começou se abrir até que ficasse do tamanho exato daquele que gritou.
    _ Veja Serpente, existe mesmo uma porta! Vamos atravessar!
    _ Não Humano, como eu já disse, minha função era alimentá-lo para que você continuasse seu caminho. Agora, atravesse e vá de encontro com o que você estava buscando.


    Então, Humano atravessou pelo portal do muro e viu aquilo que ele procurava. O lugar era um sonho, com árvores verdejantes, animais multicoloridos, lagos maravilhosos e um sol exuberante iluminando tudo aquilo. Humano se alegrou com aquele lugar. Tanto, que saiu correndo para sentir o ar fresco e suave que ali existia. Mas de repente, enquanto corria tropeçou em algo e caiu ao chão se ralando todo. Olhou para ver no quê havia tropeçado e percebeu algo luminoso no chão. O que seria aquilo?
    Olhou novamente e percebeu que o negócio parecia uma garrafa e aquela luz era o reflexo do sol, já que a garrafa era de prata polida. Apanhou a garrafa e ficou maravilhado com os detalhes dela, decidindo limpa-la para fazer brilhar ainda mais. Quando começou esfregar viu que a tampa começou abrir-se e de dentro saiu uma fumaça rósea que foi se compactando e do meio da fumaça surgiu uma mulher, uma linda e maravilhosa mulher.


    _Que espécie de magia é esta? - falou com medo Humano.
    _ Eu sou Ilusão, a filha de Serpente e da Lua, sou um djin ou gênio. Fui aprisionada nesta garrafa por meu pai, que me prometeu casamento com um belo ser. Vejo que não mentia, quando meu olho enxergou você eu me apaixonei.
    _ A mesma coisa eu senti. Você é muito bela e eu gostaria de desposá-la.
    _ Mas eu ainda não terminei. Se você se casar comigo, te darei de presente três desejos, os quais, poderá escolher o que quiser, de acordo com sua vontade.
    _ Está aceito! - falou rapidamente Humano.
    Então Humano e Ilusão se casaram e como presente de casamento, Humano recebeu os seus três desejos.
    _ Quais são os seus desejos meu querido? - perguntou Ilusão.
    Humano pensou. Titubeou em responder, e, por fim disse:
    _ Eu quero meus desejos um de cada vez, é possível?
    _ Como você quiser será - falou Ilusão.
    _ Bom, então tudo o que eu pensar deve se tornar realidade. Construirei um mundo perfeito, do jeito que eu imagino. Este é o meu primeiro desejo.
   _ Que assim seja.
   Então Humano começou pensar, pensar, pensar e tudo que ele pensava se tornava realidade. Começou ver um lindo mundo se construir e surgir em sua frente. Mas alguns não estavam contentes com o mundo daquele jeito e começaram protestar, surgindo intrigas entre as pessoas.
   Humano resolveu apagar a mente destas pessoas e criá-las todas com uma única mentalidade, e assim fez. Porém todos começaram criar o mundo com pensamentos que Humano ainda não tinha pensado e um construía e outro destruía e o mundo se tornou um caos entre construções e destruições.
   Diante da situação, Humano resolveu ir até Ilusão para seu segundo pedido.
   _ Oh, minha Ilusão querida, eu quero meu segundo pedido.
   _ Porque queres seu segundo pedido assim tão rápido?
   _ Eu criei um mundo que agora não consigo mais dominar e por mais que eu tente acertar a situação mais o mundo se torna caótico. O que eu fiz de errado?
   _ Meu querido Humano, você pode mudar a mentalidade das pessoas e dar-lhes sabedoria e a razão para questionar o certo e o errado. Mas aqueles que estão propensos ao bem serão bons e os que estão propensos ao mal serão maus, porque os sentimentos de cada um divergem entre si. Os seres jamais pensarão como você porque os sentimentos são outros.
   _ Então eu quero como segundo desejo, que todos os meus sentimentos se tornem realidade e que todos os seres da terra tenham os mesmos sentimentos que eu.
   _ Assim será - falou Ilusão.
   Todos os desejos e sentimentos do Humano imperaram sobre a terra. E os sentimentos de amor se combatiam com o ódio, a vontade com a preguiça, o altruísmo com a mesquinharia e o caos que havia sido feito tornara-se ainda pior, surgindo um mundo muito criativo, mas que criava tanto pelo bem como pelo mal. Haviam guerras e várias religiões, cada uma com um ponto de vista e com sentimentos por este ou aquele ritual. Humano tentou pensar apenas no bem, mas viu que os sentimentos bons também, dependendo da ocasião e do ponto de vista tornara-se mal, surgiam novas intrigas e novas desavenças.
   Humano voltou até Ilusão mais triste que da outra vez.
   _ Oh Ilusão! O que eu fiz de errado desta vez?- falou Humano
   _ Meu querido, a inconstância e a indecisão dos seus pensamentos se aliaram à sua mente e o que você pensa cria em sabedoria, razão e sentimento. Em sua criação estão seus sentimentos e seus sentimentos mostram o que você é e o seu mundo é de acordo com o que você é e o que você criou para si. Se você pensou em ódio, o sentimento em todos será usá-lo de acordo com o ponto da razão ou do que ache bom ou ruim - terminou Ilusão.
   _ Então eu criei nada além do que está dentro de mim?- perguntou Humano.
   _ Certo! O mundo que você vive foi criado dentro de você!
   _ Pois já é hora do meu terceiro desejo para tentar resolver o que criei - finalizou Humano.
   _ Que assim seja, mas, cuidado com o que você pede, é o seu último pedido - advertiu Ilusão.
   _ Então, que eu possa dar formas variadas aos diversos modos de pensar, aos diversos sentimentos. Que eu possa dividi-los em vários graus de evolução e os mais sábios dominem sobre os mais ignorantes. Os mais bondosos dominem sobre os maus.
   _ Assim seja - disse Ilusão - mas lembre-se que é o seu último desejo!
   Humano criou várias formas de animais, de plantas, de seres vivos e por fim, dividiu também a humanidade em vários graus de evolução. Porém a humanidade foi a única dotada de sabedoria e razão, sendo que a idéia de dividir em classes distintas acabou gerando novos erros e surgiram homens sábios mas de sentimentos maléficos, homens de sentimentos equilibrados mas de mente impura. O desgoverno do mundo foi ainda pior, pois agora, devido à ordem de grandeza, cada um fazia o que bem entendia. E fortes trucidavam fracos, sábios menosprezavam humildes, belos se irritavam com o feio, ricos retiravam suas riquezas à custa do pobre. Humano se entristeceu e decidiu que não queria mais aquele mundo, decidiu que iria destruí-lo.
   _ Querido, você pediu três filhos a mim e eu os dei. Agora quer tirá-los de mim! Que morra você! Nossos filhos jamais deixarei matar! - falou Ilusão temendo por seus filhos.
   _ Então devemos nos separar, pois eu não quero nossos filhos.
   _ Assim seja - disse Ilusão.
    Humano voltou ao muro e entrou por ele, voltando ao seu antigo mundo, o mundo para que fora criado e ali permaneceu sem nada levar de onde veio.
   Ilusão continuou em seu mundo com os filhos que teve de Humano. Seus filhos foram crescendo e são conhecidos como Civilizados e ainda vivem com a Ilusão, em seu mundo de dias eternos.
   Será que algum dia, um filho de Humano deixará os Civilizados e atravessará o muro da mãe Ilusão e buscará seu verdadeiro Pai?
   Ah... Ia me esquecendo! A Ilusão e os Civilizados viveram felizes para sempre!!!

sexta-feira, 20 de julho de 2012

FORTUNA


                                 


                                                                         FORTUNA

    Fazia muito tempo que eu não ia à Bienal em São Paulo. Naquela  tarde decidi ir pela minha terceira vez, ver como estava o mercado literário nacional, que ainda é pouco acessível devido aos preços altos da obra final.
    O tempo ruim não deveria atrapalhar minha jornada. Decidi que poderia cair o céu que eu jamais voltaria. Continuei pela estrada do “diabo velho”, conhecida como Anhanguera. Parecia que o velho diabo realmente estava por ali. A chuva que caia era descomunal. Raios cruzavam o céu e a água se transformava em pequenas pedras junto com um vento que balançava o carro na pista. Não se via um palmo na frente da estrada com tamanha tempestade.
    Alguma coisa estava estranha. Parecia que a entrada da cidade estava diferente. Havia um ar negro encima de toda entrada da grande cidade. Olhei para o velho Tietê, que continuava como sempre. Um rio negro e morto pela podridão humana.
    Continuei seguindo pela marginal, foi quando vi uma placa escrita: Estige.  
    Estige?!?! – pensei. Não me recordo de conhecer tal lugar. Mas para onde eu olhava a mesma placa estava lá. Entrei por uma rua e avistei duas torres avermelhadas pela poluição, pensei eu. Era um grande templo que parecia esconder algo atrás de suas portas enormes. Detive-me por algum tempo em sua frente. Porém, decidi continuar meu caminho pela rua.
    Mais à frente encontrei um local adornado por uma luz amarelada, talvez, pelo tempo. Mas, achai que era um local onde podia parar. Olhei ao redor e já não conhecia nada ali. Onde estaria a Bienal? Aliás, onde eu estaria?
    Em frente havia um barzinho e algumas pessoas sentadas conversando. Decidi ir até lá.
    _ Poderiam dizer-me onde é a Bienal do Livro. Acho que me perdi com a chuva - indaguei as pessoas, mas não me deram atenção. Parecia que não me conseguiam me ver. Pensei em sair quando fui abordado por uma bela mulher.
    _ Muitas vezes, as coisas não são o que parecem ser.
    _ Como? O que disse?
    _ Você não está onde pensa estar.
    _ Onde estou?
    _ Aqui vivem aqueles que não respeitam as regras e as leis do seu tempo, e assim, atrapalham as mudanças que este cautelosamente impõe ao mundo.
    _ Como assim? O que estou fazendo aqui?
    _ Tudo tem seu tempo e seu equilíbrio. Aquilo que achava que era rio, era a essência e a vida que alimenta esta grande cidade. É o acúmulo dos vícios humanos que formam este leito negro, que evapora e se transforma em grandes nuvens poluídas e em suas chuvas ácidas, espalhando o seu grande mal pelo pântano do Estige, onde está enfiada no meio do lodo toda esta humanidade injuriosa.  
    Você está aqui porque gosta disto também e porque deveria me encontrar. Eu sou a Fortuna, a Senhora do Destino. Diante de mim ninguém tem qualquer identidade. São apenas ingredientes do grande lodo negro. Insaciáveis em seus desejos devastadores e em sua ganância em devorar a riqueza. Mas não percebem os tais, que esta riqueza não perdura. Ela não é estagnada. Movimenta-se de um lado para o outro, de nação para nação, de raça para raça, de mão em mão. Uma mudança que ocorre mesmo contra a vontade e o esforço da humanidade. Vivo desde os remotos tempos. Muito antes de o homem nascer.
    _ Mas porque eu deveria te encontrar?
    _ Pra saber que este lodo pode ser vencido quando se percebe que a vida é uma constante busca daquilo que faz a humanidade feliz. Mas a felicidade pode ser enganadora se o lodo encobrir a verdade. As riquezas são consumidas pela felicidade e quando acaba gera o sofrimento. Já dizia um sábio antigo: O sofrimento existe e sua causa é esta busca pela felicidade. Mas a ilusão da Fortuna não dá a felicidade verdadeira. Para cessar o sofrimento é necessário vencer a fortuna, vencer o próprio destino através da visão do mundo ilusório e artificial que a humanidade criou.
    A realidade é o que você está vendo. O lodo a encobre e cria fantasias que a humanidade acha ser real. Talvez, no futuro descobrirão o intuito da vida e desta busca pela felicidade, e então, descobrirão que a felicidade está na forma como se vê a verdade nas coisas. Então eu, Fortuna, poderei encher a humanidade de riqueza e felicidade – terminou a bela senhora dizendo.
    Acordei naquele dia já de madrugada. Olhei no relógio já era um outro dia. Das minhas mãos havia escorregado o livro que eu lia. Marcado no Canto VII do Inferno, da Divina Comédia de Dante Alighieri.

terça-feira, 17 de julho de 2012

AQUELE HOMEM



    Aquele homem sempre passava uma parte do seu tempo no reino dos deuses observando a humanidade. Lá no céu existia uma espécie de telão, onde se observava os diversos países, as diversas cidades, as diversas famílias, e, enfim, a diversidade emocional de cada indivíduo.
    Enquanto observava indignado o telão não percebeu a chegada de outro homem, com uma aparência mais jovial e com a pele menos castigada. Havia certo perfume em seu corpo, que exalava por onde passava.
    O homem jovem viu nos olhos do homem santo muita aflição e decidiu indaga-lo sobre sua indignação:
    _Que te afliges, meu santo homem?
    _Todos os dias eu reservo um tempo para vir observar a humanidade e vejo que cada dia mais eles pensam que estão fazendo as coisas corretas, com seus avanços em tecnologia, alimentação e em tantas coisas supérfluas. Mas a sua evolução está decadente. Estão cada vez mais violentas, mais viciadas no mundo, sem respeito pela própria mãe.
    _Meu amigo acaso não sabe que o diamante para se tornar uma jóia deve ser lapidado?
    _Sim, mas até quando? Continuam não sabendo o que fazem, levando a si e aos outros para um fim deprimente. Assassinaram-me por não entenderem que nada sabem e ainda acham que sabem, mas não sabem que nada sabem. Talvez eu deveria ter sido mais ativo e menos filósofo.
    _Nós sabemos que tudo tem seu tempo e que o mundo é uma ilusão que nos leva por um aprendizado. O mundo passa e as pessoas devem mudar, mesmo parecendo que não.
    _Acredito que o mundo jamais saberá que existe outro mundo. Um mundo onde se sabe a verdade e que nossa ignorância seja sanada por idéias verdadeiras.
    _Paciência meu amigo. As coisas nem sempre são iguais para todos. Eu, por exemplo, nasci entre ricos e não conhecia a pobreza até encontrar-se com ela e buscá-la para saber a razão do sofrimento. Hoje estou aqui e vejo que a minha busca não foi em vão.
    _Eu, ao contrário, sempre vivi na pobreza e ensinava aos ricos serem ricos na alma, e a riqueza me corroeu e me matou. Aceitei minha sentença neste pobre mundo e até hoje ainda não encontrei um que me afirmasse que saiba a verdade.
    _O que adiantou a verdade para você?
    _A verdade me alimentou e me libertou da hipocrisia.
    _Mas você ainda é indignado com a humanidade.
    _É que agora eles dizem que não sabem de nada, quando às vezes sabem. Estão onde não estão, vão onde não vão. Não consigo mais entender a humanidade. Veja aquele homem barbudo lá embaixo. Um monte de coisas acontecendo do seu lado e ele usa o “sei que nada sei”. Mas ele sabe. Não é uma traição de si mesmo?
    _Talvez saiba, mas será que a ilusão de ser alguém, sua personalidade forte lhe dizendo: “Eu sou! Logo existo!”. Não é uma forma de mostrar que seu mundo,é uma ilusão, um caminho na sua busca por algo melhor?
    _Mas é direito buscar por algo, rejeitando os desejos dos outros que não compartilham com as mesmas idéias?
    _Na minha crença existe uma palavra que designa esta união de pessoas seguindo algo em comum. Dependendo da cabeça é como o corpo age. Assim são as pessoas, assim é o karma.