terça-feira, 31 de julho de 2012

O HUMANO E A ILUSÃO






   Era uma vez um Homem chamado HUMANO. Este homem chamado Humano vivia feliz e sem muitas preocupações com seu dia-a-dia. Cuidava de sua pesca e de sua caça, se alimentando também de frutas e alimentos do seu cultivo. Humano era muito feliz com sua vida, muito alegre com sua família e com seus amigos.
    Um dia humano caminhando por entre os bosques, observou um grande muro que o separava de outra região, na qual, ele nunca ouvira falar. Olhou para o muro íngreme e percebeu que se não houvesse uma porta jamais alguém conseguiria atravessá-lo, já que era muito alto e escorregadio. Tentou fincar pregos na parede do muro, mas o material não aceitava os seus pregos. Tentou fixar cordas e escadas nos altos muros, mas escorregavam e caiam. Resolveu então procurar por todo o muro uma porta ou uma entrada que desse para passar. Caminhou vários dias passando fome e frio, não tendo onde se alojar, pois, o muro foi se tornando a única construção diante de um grande deserto. Ao longe viu uma sombra se mexendo como que se estivesse a chamá-lo. Humano resolveu ir até onde estava aquele que o chamava. Chegando perto viu que não era uma pessoa e sim um ser parecido com um lagarto, meio humano meio animal, que lhe dirigiu a palavra:
    _ Olá homem. O que fazes em meu reino? Queres morrer de fome e de frio neste deserto?
    _ Olá ser estranho, estou à procura de uma porta para atravessar este muro, mas não sabia que havia um reino no deserto - falou Humano.
    _ Meu nome é Serpente, e meu reino parece um deserto, mas não é. Sente-se e coma o que puder. A estrada será longa e você deve se alimentar aqui em meu reino. Quem sabe se alimentando você não descubra a porta do muro?
    _ Senhor Serpente, também procuras a entrada do muro?
    _ Procuro a entrada, mas não gostaria de atravessá-la. Acredito que não foi feita para nós, não homens, o que está atrás deste muro.
    _Temerias entrar comigo pela porta do muro, meu amigo?
    _ Não é temor, mas eu acredito que estou aqui apenas para ajudá-lo na busca da porta, mas não posso deixar meu reino deserto, devo cuidar do deserto para que não fique deserto. Agora se sente, e coma o que quiser.
    Humano sentou-se e comeu de todas aquelas guloseimas dadas pelo amigo Serpente. Comeu coisas que nunca havia experimentado e estava pronto para encontrar a entrada. De repente olhou no muro e viu um buraco, era um minúsculo buraco que não dava para colocar nenhum dos dedos em seu furo.
    _ Serpente, existe um buraco no muro. Você percebeu isto?
    _ Vi este furo no muro e tentei olhar lá dentro, mas não enxerguei nada. Minha visão é muito turva e se atrapalha com as imagens que vem lá de dentro.
    Então humano decidiu olhar pelo buraco. Eis que viu um jardim todo verdejante e no meio do jardim uma tabuleta com estes dizeres:
    “Grite seu nome o mais alto que puder!”.
    Humano não pensou duas vezes. Ergueu-se e gritou com todas as forças do seu pulmão:
    HUMANOOOOOOOOOO!
    Neste momento uma parte do muro começou se abrir até que ficasse do tamanho exato daquele que gritou.
    _ Veja Serpente, existe mesmo uma porta! Vamos atravessar!
    _ Não Humano, como eu já disse, minha função era alimentá-lo para que você continuasse seu caminho. Agora, atravesse e vá de encontro com o que você estava buscando.


    Então, Humano atravessou pelo portal do muro e viu aquilo que ele procurava. O lugar era um sonho, com árvores verdejantes, animais multicoloridos, lagos maravilhosos e um sol exuberante iluminando tudo aquilo. Humano se alegrou com aquele lugar. Tanto, que saiu correndo para sentir o ar fresco e suave que ali existia. Mas de repente, enquanto corria tropeçou em algo e caiu ao chão se ralando todo. Olhou para ver no quê havia tropeçado e percebeu algo luminoso no chão. O que seria aquilo?
    Olhou novamente e percebeu que o negócio parecia uma garrafa e aquela luz era o reflexo do sol, já que a garrafa era de prata polida. Apanhou a garrafa e ficou maravilhado com os detalhes dela, decidindo limpa-la para fazer brilhar ainda mais. Quando começou esfregar viu que a tampa começou abrir-se e de dentro saiu uma fumaça rósea que foi se compactando e do meio da fumaça surgiu uma mulher, uma linda e maravilhosa mulher.


    _Que espécie de magia é esta? - falou com medo Humano.
    _ Eu sou Ilusão, a filha de Serpente e da Lua, sou um djin ou gênio. Fui aprisionada nesta garrafa por meu pai, que me prometeu casamento com um belo ser. Vejo que não mentia, quando meu olho enxergou você eu me apaixonei.
    _ A mesma coisa eu senti. Você é muito bela e eu gostaria de desposá-la.
    _ Mas eu ainda não terminei. Se você se casar comigo, te darei de presente três desejos, os quais, poderá escolher o que quiser, de acordo com sua vontade.
    _ Está aceito! - falou rapidamente Humano.
    Então Humano e Ilusão se casaram e como presente de casamento, Humano recebeu os seus três desejos.
    _ Quais são os seus desejos meu querido? - perguntou Ilusão.
    Humano pensou. Titubeou em responder, e, por fim disse:
    _ Eu quero meus desejos um de cada vez, é possível?
    _ Como você quiser será - falou Ilusão.
    _ Bom, então tudo o que eu pensar deve se tornar realidade. Construirei um mundo perfeito, do jeito que eu imagino. Este é o meu primeiro desejo.
   _ Que assim seja.
   Então Humano começou pensar, pensar, pensar e tudo que ele pensava se tornava realidade. Começou ver um lindo mundo se construir e surgir em sua frente. Mas alguns não estavam contentes com o mundo daquele jeito e começaram protestar, surgindo intrigas entre as pessoas.
   Humano resolveu apagar a mente destas pessoas e criá-las todas com uma única mentalidade, e assim fez. Porém todos começaram criar o mundo com pensamentos que Humano ainda não tinha pensado e um construía e outro destruía e o mundo se tornou um caos entre construções e destruições.
   Diante da situação, Humano resolveu ir até Ilusão para seu segundo pedido.
   _ Oh, minha Ilusão querida, eu quero meu segundo pedido.
   _ Porque queres seu segundo pedido assim tão rápido?
   _ Eu criei um mundo que agora não consigo mais dominar e por mais que eu tente acertar a situação mais o mundo se torna caótico. O que eu fiz de errado?
   _ Meu querido Humano, você pode mudar a mentalidade das pessoas e dar-lhes sabedoria e a razão para questionar o certo e o errado. Mas aqueles que estão propensos ao bem serão bons e os que estão propensos ao mal serão maus, porque os sentimentos de cada um divergem entre si. Os seres jamais pensarão como você porque os sentimentos são outros.
   _ Então eu quero como segundo desejo, que todos os meus sentimentos se tornem realidade e que todos os seres da terra tenham os mesmos sentimentos que eu.
   _ Assim será - falou Ilusão.
   Todos os desejos e sentimentos do Humano imperaram sobre a terra. E os sentimentos de amor se combatiam com o ódio, a vontade com a preguiça, o altruísmo com a mesquinharia e o caos que havia sido feito tornara-se ainda pior, surgindo um mundo muito criativo, mas que criava tanto pelo bem como pelo mal. Haviam guerras e várias religiões, cada uma com um ponto de vista e com sentimentos por este ou aquele ritual. Humano tentou pensar apenas no bem, mas viu que os sentimentos bons também, dependendo da ocasião e do ponto de vista tornara-se mal, surgiam novas intrigas e novas desavenças.
   Humano voltou até Ilusão mais triste que da outra vez.
   _ Oh Ilusão! O que eu fiz de errado desta vez?- falou Humano
   _ Meu querido, a inconstância e a indecisão dos seus pensamentos se aliaram à sua mente e o que você pensa cria em sabedoria, razão e sentimento. Em sua criação estão seus sentimentos e seus sentimentos mostram o que você é e o seu mundo é de acordo com o que você é e o que você criou para si. Se você pensou em ódio, o sentimento em todos será usá-lo de acordo com o ponto da razão ou do que ache bom ou ruim - terminou Ilusão.
   _ Então eu criei nada além do que está dentro de mim?- perguntou Humano.
   _ Certo! O mundo que você vive foi criado dentro de você!
   _ Pois já é hora do meu terceiro desejo para tentar resolver o que criei - finalizou Humano.
   _ Que assim seja, mas, cuidado com o que você pede, é o seu último pedido - advertiu Ilusão.
   _ Então, que eu possa dar formas variadas aos diversos modos de pensar, aos diversos sentimentos. Que eu possa dividi-los em vários graus de evolução e os mais sábios dominem sobre os mais ignorantes. Os mais bondosos dominem sobre os maus.
   _ Assim seja - disse Ilusão - mas lembre-se que é o seu último desejo!
   Humano criou várias formas de animais, de plantas, de seres vivos e por fim, dividiu também a humanidade em vários graus de evolução. Porém a humanidade foi a única dotada de sabedoria e razão, sendo que a idéia de dividir em classes distintas acabou gerando novos erros e surgiram homens sábios mas de sentimentos maléficos, homens de sentimentos equilibrados mas de mente impura. O desgoverno do mundo foi ainda pior, pois agora, devido à ordem de grandeza, cada um fazia o que bem entendia. E fortes trucidavam fracos, sábios menosprezavam humildes, belos se irritavam com o feio, ricos retiravam suas riquezas à custa do pobre. Humano se entristeceu e decidiu que não queria mais aquele mundo, decidiu que iria destruí-lo.
   _ Querido, você pediu três filhos a mim e eu os dei. Agora quer tirá-los de mim! Que morra você! Nossos filhos jamais deixarei matar! - falou Ilusão temendo por seus filhos.
   _ Então devemos nos separar, pois eu não quero nossos filhos.
   _ Assim seja - disse Ilusão.
    Humano voltou ao muro e entrou por ele, voltando ao seu antigo mundo, o mundo para que fora criado e ali permaneceu sem nada levar de onde veio.
   Ilusão continuou em seu mundo com os filhos que teve de Humano. Seus filhos foram crescendo e são conhecidos como Civilizados e ainda vivem com a Ilusão, em seu mundo de dias eternos.
   Será que algum dia, um filho de Humano deixará os Civilizados e atravessará o muro da mãe Ilusão e buscará seu verdadeiro Pai?
   Ah... Ia me esquecendo! A Ilusão e os Civilizados viveram felizes para sempre!!!

sexta-feira, 20 de julho de 2012

FORTUNA


                                 


                                                                         FORTUNA

    Fazia muito tempo que eu não ia à Bienal em São Paulo. Naquela  tarde decidi ir pela minha terceira vez, ver como estava o mercado literário nacional, que ainda é pouco acessível devido aos preços altos da obra final.
    O tempo ruim não deveria atrapalhar minha jornada. Decidi que poderia cair o céu que eu jamais voltaria. Continuei pela estrada do “diabo velho”, conhecida como Anhanguera. Parecia que o velho diabo realmente estava por ali. A chuva que caia era descomunal. Raios cruzavam o céu e a água se transformava em pequenas pedras junto com um vento que balançava o carro na pista. Não se via um palmo na frente da estrada com tamanha tempestade.
    Alguma coisa estava estranha. Parecia que a entrada da cidade estava diferente. Havia um ar negro encima de toda entrada da grande cidade. Olhei para o velho Tietê, que continuava como sempre. Um rio negro e morto pela podridão humana.
    Continuei seguindo pela marginal, foi quando vi uma placa escrita: Estige.  
    Estige?!?! – pensei. Não me recordo de conhecer tal lugar. Mas para onde eu olhava a mesma placa estava lá. Entrei por uma rua e avistei duas torres avermelhadas pela poluição, pensei eu. Era um grande templo que parecia esconder algo atrás de suas portas enormes. Detive-me por algum tempo em sua frente. Porém, decidi continuar meu caminho pela rua.
    Mais à frente encontrei um local adornado por uma luz amarelada, talvez, pelo tempo. Mas, achai que era um local onde podia parar. Olhei ao redor e já não conhecia nada ali. Onde estaria a Bienal? Aliás, onde eu estaria?
    Em frente havia um barzinho e algumas pessoas sentadas conversando. Decidi ir até lá.
    _ Poderiam dizer-me onde é a Bienal do Livro. Acho que me perdi com a chuva - indaguei as pessoas, mas não me deram atenção. Parecia que não me conseguiam me ver. Pensei em sair quando fui abordado por uma bela mulher.
    _ Muitas vezes, as coisas não são o que parecem ser.
    _ Como? O que disse?
    _ Você não está onde pensa estar.
    _ Onde estou?
    _ Aqui vivem aqueles que não respeitam as regras e as leis do seu tempo, e assim, atrapalham as mudanças que este cautelosamente impõe ao mundo.
    _ Como assim? O que estou fazendo aqui?
    _ Tudo tem seu tempo e seu equilíbrio. Aquilo que achava que era rio, era a essência e a vida que alimenta esta grande cidade. É o acúmulo dos vícios humanos que formam este leito negro, que evapora e se transforma em grandes nuvens poluídas e em suas chuvas ácidas, espalhando o seu grande mal pelo pântano do Estige, onde está enfiada no meio do lodo toda esta humanidade injuriosa.  
    Você está aqui porque gosta disto também e porque deveria me encontrar. Eu sou a Fortuna, a Senhora do Destino. Diante de mim ninguém tem qualquer identidade. São apenas ingredientes do grande lodo negro. Insaciáveis em seus desejos devastadores e em sua ganância em devorar a riqueza. Mas não percebem os tais, que esta riqueza não perdura. Ela não é estagnada. Movimenta-se de um lado para o outro, de nação para nação, de raça para raça, de mão em mão. Uma mudança que ocorre mesmo contra a vontade e o esforço da humanidade. Vivo desde os remotos tempos. Muito antes de o homem nascer.
    _ Mas porque eu deveria te encontrar?
    _ Pra saber que este lodo pode ser vencido quando se percebe que a vida é uma constante busca daquilo que faz a humanidade feliz. Mas a felicidade pode ser enganadora se o lodo encobrir a verdade. As riquezas são consumidas pela felicidade e quando acaba gera o sofrimento. Já dizia um sábio antigo: O sofrimento existe e sua causa é esta busca pela felicidade. Mas a ilusão da Fortuna não dá a felicidade verdadeira. Para cessar o sofrimento é necessário vencer a fortuna, vencer o próprio destino através da visão do mundo ilusório e artificial que a humanidade criou.
    A realidade é o que você está vendo. O lodo a encobre e cria fantasias que a humanidade acha ser real. Talvez, no futuro descobrirão o intuito da vida e desta busca pela felicidade, e então, descobrirão que a felicidade está na forma como se vê a verdade nas coisas. Então eu, Fortuna, poderei encher a humanidade de riqueza e felicidade – terminou a bela senhora dizendo.
    Acordei naquele dia já de madrugada. Olhei no relógio já era um outro dia. Das minhas mãos havia escorregado o livro que eu lia. Marcado no Canto VII do Inferno, da Divina Comédia de Dante Alighieri.

terça-feira, 17 de julho de 2012

AQUELE HOMEM



    Aquele homem sempre passava uma parte do seu tempo no reino dos deuses observando a humanidade. Lá no céu existia uma espécie de telão, onde se observava os diversos países, as diversas cidades, as diversas famílias, e, enfim, a diversidade emocional de cada indivíduo.
    Enquanto observava indignado o telão não percebeu a chegada de outro homem, com uma aparência mais jovial e com a pele menos castigada. Havia certo perfume em seu corpo, que exalava por onde passava.
    O homem jovem viu nos olhos do homem santo muita aflição e decidiu indaga-lo sobre sua indignação:
    _Que te afliges, meu santo homem?
    _Todos os dias eu reservo um tempo para vir observar a humanidade e vejo que cada dia mais eles pensam que estão fazendo as coisas corretas, com seus avanços em tecnologia, alimentação e em tantas coisas supérfluas. Mas a sua evolução está decadente. Estão cada vez mais violentas, mais viciadas no mundo, sem respeito pela própria mãe.
    _Meu amigo acaso não sabe que o diamante para se tornar uma jóia deve ser lapidado?
    _Sim, mas até quando? Continuam não sabendo o que fazem, levando a si e aos outros para um fim deprimente. Assassinaram-me por não entenderem que nada sabem e ainda acham que sabem, mas não sabem que nada sabem. Talvez eu deveria ter sido mais ativo e menos filósofo.
    _Nós sabemos que tudo tem seu tempo e que o mundo é uma ilusão que nos leva por um aprendizado. O mundo passa e as pessoas devem mudar, mesmo parecendo que não.
    _Acredito que o mundo jamais saberá que existe outro mundo. Um mundo onde se sabe a verdade e que nossa ignorância seja sanada por idéias verdadeiras.
    _Paciência meu amigo. As coisas nem sempre são iguais para todos. Eu, por exemplo, nasci entre ricos e não conhecia a pobreza até encontrar-se com ela e buscá-la para saber a razão do sofrimento. Hoje estou aqui e vejo que a minha busca não foi em vão.
    _Eu, ao contrário, sempre vivi na pobreza e ensinava aos ricos serem ricos na alma, e a riqueza me corroeu e me matou. Aceitei minha sentença neste pobre mundo e até hoje ainda não encontrei um que me afirmasse que saiba a verdade.
    _O que adiantou a verdade para você?
    _A verdade me alimentou e me libertou da hipocrisia.
    _Mas você ainda é indignado com a humanidade.
    _É que agora eles dizem que não sabem de nada, quando às vezes sabem. Estão onde não estão, vão onde não vão. Não consigo mais entender a humanidade. Veja aquele homem barbudo lá embaixo. Um monte de coisas acontecendo do seu lado e ele usa o “sei que nada sei”. Mas ele sabe. Não é uma traição de si mesmo?
    _Talvez saiba, mas será que a ilusão de ser alguém, sua personalidade forte lhe dizendo: “Eu sou! Logo existo!”. Não é uma forma de mostrar que seu mundo,é uma ilusão, um caminho na sua busca por algo melhor?
    _Mas é direito buscar por algo, rejeitando os desejos dos outros que não compartilham com as mesmas idéias?
    _Na minha crença existe uma palavra que designa esta união de pessoas seguindo algo em comum. Dependendo da cabeça é como o corpo age. Assim são as pessoas, assim é o karma.