terça-feira, 14 de agosto de 2012

FORTUNA


                         


                                                                      FORTUNA

    Fazia muito tempo que eu não ia à Bienal em São Paulo. Naquela tarde, decidi ir pela minha terceira vez, para ver como estava o mercado literário nacional, que ainda é pouco acessível devido aos preços altos da obra final.
    O tempo ruim não deveria atrapalhar minha jornada. Decidi que poderia cair o céu que eu jamais voltaria. Continuei pela estrada do “diabo velho”, que é a tradução da palavra indígena Anhanguera. Parecia que o velho diabo realmente estava por ali. A chuva que caia era descomunal. Raios cruzavam o céu e a água se transformava em pequenas pedras junto com um vento que balançava o carro na pista. Não se via um palmo na frente da estrada com tamanha tempestade.
    Alguma coisa estava estranha. Parecia que a entrada da cidade estava diferente. Havia um ar negro encima de toda entrada da grande cidade. Olhei para o velho Tietê, que continuava como sempre. Um rio negro e morto pela podridão humana.
    Continuei seguindo pela marginal, foi quando vi uma placa escrita: Estige.  
    Estige?!?! – pensei. Não me recordo de conhecer tal lugar. Mas para onde eu olhava a mesma placa estava lá. Entrei por uma rua e avistei duas torres avermelhadas pela poluição. Pensei eu, era um grande templo que parecia esconder algo atrás de suas portas enormes. Detive-me por algum tempo em sua frente. Porém, decidi continuar meu caminho pela rua.
    Mais à frente encontrei um local adornado por uma luz amarelada, talvez, pelo tempo. Mas, achei que era um local onde podia parar. Olhei ao redor e já não conhecia nada ali. Onde estaria a Bienal? Aliás, onde eu estaria?
    Em frente havia um barzinho e algumas pessoas sentadas conversando. Decidi ir até lá.
    _ Poderiam dizer-me onde é a Bienal do Livro. Acho que me perdi com a chuva - indaguei as pessoas, mas não me deram atenção. Parecia que não me conseguiam me ver. Pensei em sair, quando fui abordado por uma bela mulher.
    _ Muitas vezes, as coisas não são o que parecem ser.
    _ Como? O que disse?
    _ Você não está onde pensa estar.
    _ Onde estou?
    _ Aqui vivem aqueles que não respeitam as regras e as leis do seu tempo, e assim, atrapalham as mudanças que este cautelosamente impõe ao mundo.
    _ Como assim? O que estou fazendo aqui?
    _ Tudo tem seu tempo e seu equilíbrio. Aquilo que achava que era rio, era a essência e a vida que alimenta esta grande cidade. É o acúmulo dos vícios humanos que formam este leito negro, que evapora e se transforma em grandes nuvens poluídas e em suas chuvas ácidas, espalhando o seu grande mal pelo pântano do Estige, onde está enfiada no meio do lodo toda esta humanidade injuriosa.  
    Você está aqui porque gosta disto também e porque deveria me encontrar. Eu sou a Fortuna, a Senhora do Destino. Diante de mim ninguém tem qualquer identidade. São apenas ingredientes do grande lodo negro. Insaciáveis em seus desejos devastadores e em sua ganância em devorar a riqueza. Mas não percebem os tais, que esta riqueza não perdura. Ela não é estagnada. Movimenta-se de um lado para o outro, de nação para nação, de raça para raça, de mão em mão. Uma mudança que ocorre mesmo contra a vontade e o esforço da humanidade. Vivo desde os remotos tempos. Muito antes de o homem nascer.
    _ Mas porque eu deveria te encontrar?
    _ Pra saber que este lodo pode ser vencido quando se percebe que a vida é uma constante busca daquilo que faz a humanidade feliz. Mas a felicidade pode ser enganadora se o lodo encobrir a verdade. As riquezas são consumidas pela felicidade e quando acaba gera o sofrimento. Já dizia um sábio antigo: O sofrimento existe e sua causa é esta busca pela felicidade. Mas a ilusão da Fortuna não dá a felicidade verdadeira. Para cessar o sofrimento é necessário vencer a fortuna, vencer o próprio destino através da visão do mundo ilusório e artificial que a humanidade criou.
    A realidade é o que você está vendo. O lodo a encobre e cria fantasias que a humanidade acha ser real. Talvez, no futuro descobrirão o intuito da vida e desta busca pela felicidade, e então, descobrirão que a felicidade está na forma como se vê a verdade nas coisas. Então eu, Fortuna, poderei encher a humanidade de riqueza e felicidade – terminou a bela senhora dizendo.
    Acordei naquele dia já de madrugada. Olhei no relógio já era outro dia. Das minhas mãos havia escorregado o livro que eu lia. Marcado no Canto VII do Inferno, da Divina Comédia de Dante Alighieri.