sábado, 29 de setembro de 2012

O MANGAKA



O MANGAKA

Na minha adolescência sempre viajava para a cidade natal do meu pai. Cidade pequena, enfiada no meio dos morros, Ribeirão Bonito era um paraíso, com seus riachos e muito mato para dar um passeio e explorar seus morros cheios de pedras e animais silvestres.
No carnaval, eu sempre migrava para a pequena cidade, fugindo da festa mais popular do Brasil, que para mim era e ainda é, apenas um feriado prolongado e bom para viagens.
Foi num destes carnavais que conheci Seu Dito, um senhor negro, solitário, que morava ainda numa casa de barro na beira dum riacho. Lembro ainda hoje de seus olhos grandes e esbugalhados, sentado na porta da casinha fumando seu cachimbo feito de bambu.
Um dia passando por lá, avistei Seu Dito consertando sua tubulação de água toda feita de bambu. Achei interessante a sua engenharia e fui conversar com ele, como bom curioso que sou. Com o tempo ficamos amigos e numa de nossas conversas lhe disse que não gostava de carnaval.
_Eu tamém não - falou cortando fumo do rolo pra fazer um picadão- minha história é muito triste.
_Triste? Porque Seu Dito?
_Tem a vê cum uma paxão de mocidade qui mi acompanhô inté hoje.
_Verdade Seu Dito? Então deveria ser uma moça muito bonita.
_Si era. Era a mais bunita da redondeza.
_E o que aconteceu então Seu Dito?
_O Mangaka levou ela.
_Mangaka? O que é isto?
_O Mangaka é um bunequinho que usa na macumba. Ele tem vida. O Exú dá vida pra ele. Intão ele faiz os pidido que a mandinga pede. Aí enfia um prego no buneco com o pidido e ele faiz - terminou de falar e fez o sinal da cruz.
_Mas como que foi isso Seu Dito?
_Eu morava numa fazenda in casa di barro. I ela morava in otra mais perto da cidade. O nome dela era Maria Soledade. Nóis se conheceu num carnavá i num respeitamu o dia de cinza. Intão otra minina cum inveja dela. Eu era um home bunito. Entrego o nome dela na mandinga pra cabá cum ela. E foi assim. 
O  Mangaka veio e pego ela. Levo num sei pronde. Eu precurei inté no cimitério e nada. E num dia de lua cheia, ouvi barúio na porta e abri com isperança di sê ela. Mas quem eu vejo? O tar buneco in pessoa. Tinha uns dois metro e cheio di prego ispaiado no corpo. Cada um era um pidido realizado. Ele entro in casa e desde intão só me disgraça a vida.
_Mas ele não foi embora Seu Dito?- indaguei espantado.
_Não, tá aqui inda- apontou pra dentro de casa com a ponta do cachimbo - o Exú gostô daqui e ficô. Qué vê?
_Dá pra ver ele Seu Dito?
_Dá. Agora ele é buneco di novo. Só vorta virá sombração si alguém 
acordá ele. Ai ele realiza a mandinga.
_E o senhor nunca pediu nada seu Dito?
_E tu fazia um pidido pro Exú?
_E agora. Faria eu um pedido? Acordaria o Mangaka...de seu sono de zumbi?

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

AMOR E PAIXÃO


                                                   


    AMOR E PAIXÃO


    Naquele inverno tresloucado e equatorial, onde às vezes faz frio que seca o ar cortante e cambaleante pelo vento. Estava aquela menina, rapazola, virgem, sentada à beira da estrada, esperando que a monotonia do quotidiano lhe trouxesse juntamente com o vento, o ser amado que tanto esperava.
    Todas as tardes era a mesma coisa. Sentava-se numa pedra à beira da estrada, pegava seu espelho e sua escove de cabelos e se penteava, tal como uma gata se lambendo e se purificando dos ares poluídos da redondeza.
    Era uma menina linda, morena, com os cabelos compridos e brilhantes, seus cachos desciam pela silhueta de seus contornos como as ondas do mar lambendo a areia, deslizavam e avolumavam seus seios fartos e belos. A pureza da menina não era somente o seu corpo. Pensava puramente. Pensava em poesia, em príncipes encantados, em finais felizes, em sonhos lindos. Sonhava com coisas sempre felizes.
    Ao contrário do que muitos podem estar esperando, esta não é uma história de final trágico ou triste. Mas uma história feliz, misturando amor e paixão, falando de pureza e da realidade infinita. Todos geralmente esperam que a menina sofra desilusões, que seus sonhos se tornem frustrados. Porém, sua realidade se transforma, não sei se devido à sua pureza ou se, como dizia o Antigo Testamento: “Os deuses gostaram das filhas dos homens”.
    Ali, sentada sobre a pedra à beira do caminho, a menina tornou-se mulher e um dia por ali passou o seu derradeiro príncipe. Vinha ele em seu cavalo feito um Dom Quixote, sendo herói para quem o via como tal. Um rapaz elegante e forte, da altura que todas mulheres sonhavam. Sua musculatura era de um deus olímpico, que em seu cavalo assemelhava-se com Marte. Imponente sobre o cavalo olhava para as pessoas com desdém. Achava-se o herói dos heróis. No entanto, com apenas um olhar daquela bela mulher, foi-se a imponência. Enlouqueceu tal qual Dom Quixote e se prendeu nas grades do amor, assim como Marte ante o amor de Afrodite, mulher de Heféstus. Aquele pequeno olhar delicado e sensível encheu-lhe o coração de amor, retirando os pedaços de pedra que ali se encontravam. Num repentino esforço para acordar do sonho, o rapaz parou, desceu do cavalo. Na descida tropeçou tombando sem querer aos braços daquela bela mulher. Neste instante o herói descobriu que na realidade queria tropeçar naqueles braços, naquele leito macio adornado de pureza, com cheiro de amor e beleza, onde jamais quereria deixar de agora em diante. Faria moradia naquele coração, possuiria aquela alma. Sim, era um caso de platonismo disfarçado pelo ar de grande cavaleiro. Olhava aqueles olhos esperando alguma palavra, mas nada diziam aqueles, ao contrário, o olhavam com ternura e pureza ao mesmo tempo em que exprimiam espanto e vergonha.
    Enquanto o rapaz se perdia em seus devaneios, a menina sentia que seu momento tão esperado havia chegado, seu príncipe encantado a encantara. Eram sortilégios, magia, hipnose. Nada se comparava à plenitude daquele amor.
    O nome dela era Aédon, filha de um pintor que havia imortalizado reis e sábios de vários cantos do mundo. Em suas telas havia roubado a alma de várias pessoas que terminaram por se encantar com a semelhança da imagem. Era um deus. Ao contrário do conto grego, seu amado Politécne, era um guerreiro e sabia apenas da vida em cima de seu belo cavalo Félix.
    Mas o destino foi generoso ao casal e o cupido estava à espreita e quando os pequenos olhos negros da bela Aédon cruzaram os olhos verdes de Politécne, houve a união do homem, foi o retorno ao Paraíso.
    Os dois se conheceram, se amaram, se apaixonaram e se uniram. Uma união que jamais houve em tempo algum e em momento algum da história, em nenhuma terra, nenhum planeta. O amor platônico era irônico perto do amor e da paixão daqueles mortais, que viviam felizes pela simples condição de se conhecerem e se amarem.
    No céu, os deuses olhavam com inveja aqueles filhos de homens. Irritados com a demonstração de infinita paixão, decidiram interferir no amor do casal. Lançaram então o poder da discórdia para separa-los, pois tudo que existe em favor do amor e da paixão é considerado subversivo para os deuses, que nos invejam, porque conseguimos ser mais felizes que eles, e porque comemos o fruto do bem e do mal e vivemos o amor eterno. A inveja foi tanta que nos expulsaram do Paraíso para não vivermos eternamente na felicidade, já que o primeiro casal era feliz e não necessitava de mais nada. Porém e inveja dos deuses causaram a ruína do ser humano. Mais ainda, hoje nos invejam porque conseguimos manter o amor ao semelhante, coisa que eles não conseguiram. Não conseguiram também, vencer a nobre força do amor de Aédon e Politécne, que continuaram seu grande amor, mesmo com a discórdia tentando dissuadi-los.
    Aédon se entristecia quando Politécne saia em viagens pelo mundo em busca de riquezas e fama, temia que pudesse surgir entre eles alguma deusa disfarçada para tentar destruir o grande amor. Politécne por sua vez, se angustiava em deixar Aédon com os filhos Adônis e Mirra. Mas, procurava uma forma de viver feliz, longe do dia a dia rotineiro. Não queria ser mais um Caim, viver no campo plantando sementes, regando plantas, açoitando bois e burros. Queria ouro e a fama, para poder expor o que na solidão de seu mundo não podia. Então decidiu procurar seu santo graal pelas estradas da vida. Aprendia mais e mais sobre o mundo e o poder oculto atrás deste seu mundo. Sabia que as coisas não eram o que pareciam, eram apenas ilusões que regiam a vida bestial do ser humano. A única coisa que tinha certeza de ser considerado verdadeiro era o amor que sentia por Aédon e a saudade que apertava em seu peito toda vez que parava para pensar.
    Distante dos braços de Politécne, Aédon se sentia insegura e procurava nos filhos o pedaço do amor que lhe era reservado. Politécne demorava dias para aparecer, para restaurar o vazio e a falta que lhe corroia o coração. Enquanto isso, os deuses se vangloriavam em conseguir deixar os dois distantes em seus ideais, se esquecendo um do outro. Com isso, tentavam colocar entre os dois a discórdia e o ciúme, sabendo que o coração sentimental com as coisas terrenas, certamente levaria os dois para a discórdia. Os deuses, cegos pelo orgulho de se acharem superiores, jamais percebiam que as sementes da discórdia ajudavam os homens ficarem mais fortes contra as investiduras dos deuses que pensavam apenas em ter a submissão dos homens.
    Politécne sentiu um frio na espinha e desejou voltar para o seio de sua amada. Pegou nas rédeas de seu velho amigo Félix, cruzou o mundo, enfrentou todas as tentativas que os deuses fizeram para tentar dissuadi-lo de seu caminho. Mas o amor entre Aédon e Politécne era mais forte que qualquer intempérie. Foi assim que Politécne voltou para Aédon. Ao vê-lo, Aédon correu até onde ele estava, esquecendo até os filhos brincando no quintal. Mas alguns deuses decidiram extermina-los para que não se gabarem do grande amor que sentiam um pelo outro. Transformaram todos em uma família de pássaros e os jogaram dentro da mais densa floresta.
    Hoje, os homens vêm de longe para ouvirem o canto da família de Aédon e Politécne. Quem nunca ouviu falar do canto do belo Uirapuru?

sábado, 15 de setembro de 2012

A CHACINA DA ÉTICA E DA MORAL


                                       A CHACINA DA ÉTICA E DA MORAL






      Um dia, num país onde não havia guerras e o seu povo vivia na felicidade eterna, surgiu um grupo de indivíduos que achavam que a vida moral do país estava estagnada e que seu país não seguia as velhas leis da barbárie, onde, aqueles que não contribuíam com a moral e a ética, eram presos e executados para que nunca mais caíssem em tentação.
      No meio daquele povo, originou-se um movimento que não acreditava na violência e fundaram então, os direitos da humanidade, onde a ética e a moral proibiam os semelhantes de se auto-agredirem.
      O tempo foi passando e os que fundaram tais leis perceberam que a sociedade feliz e sem guerras não tinha força para evoluir em sua moral e proibia àqueles que desejavam modificar o padrão social, de se manifestarem a favor da barbárie. Não sabiam tais indivíduos que sua descendência e os trejeitos que haveriam de copiar a contragosto mas gostando, haveriam de ser frutos da mesma barbárie condenada. Houve um impasse, porém, a ética e a moral local conseguiu acalmar os ânimos mais exaltados e aqueles que se exaltaram demais, foram convidados apodrecerem em algum hospício do país.
      Diante daquela felicidade eterna, as pessoas aprenderam que podiam encontrar falhas no sistema, tanto ético como moral. Procuravam nos maiores livros escritos pelos maiores escritores do país e descobriram que tudo se desenvolve como um novelo de lã, que se desenrola em fatos, e os fatos se desenvolvem na vida social, padronizando a sociedade com seus conceitos de ética e moral. Na verdade, tal país era todo desenvolvido através da ética e de sua moral, considerada altamente evoluída e tradicional.
      Mas alguns indivíduos criaram novas leis que burlavam as antigas, procurando tirar proveito para o pequeno grupo seleto. Designavam-se como grandes empresários, que empresariavam as falcatruas mais nocivas da sociedade, enquanto esta acreditava que seus próprios cidadãos eram mais nocivos à sociedade do que os que realmente eram.
      Enquanto o povo achava que vivia no paraíso, as falácias enganavam os mais desavisados, que neste país era a maioria.
      Houve tentativa de mudanças. Pessoas saíram pintadas nas ruas, alguns explodiram alguns carros, outros se fizeram de vítima, porém no futuro, o que era alfa tornou-se ômega.

       A sociedade foi evoluindo e os meios de comunicações criavam as cenas de ética e moral para servir de base à população enquanto aquele grupo seleto achava conveniente colocar mulheres nuas, casos de morte autoflagelação, para que o povo se achasse cada vez mais pútrido, não merecendo ética, nem moral. Afinal, tendo pão e circo, o povo permanece fiel às raízes. O grupo seleto sabia disso, tanto que a cloaca se abriu e em vez de expelir, engoliu a todos, esquecendo-se da ética e da moral.
      O grupo seleto ainda não estava contente com aquilo que proporcionava sua existência e resolveram então criar uma organização mundial contra e violência. O povo aplaudiu de pé. E enfim, o grupo seleto iria pensar em seus indivíduos, naqueles que não tinham condições de prestar-se à ética e a moral porque eram tão ignorantes que nenhuma escola daquele país poderia instruí-los. Não havia meio de Ter uma escola tão ética e moralizada que ignorasse os padrões éticos e morais do país.
       Passou o tempo e um entre o grupo de seletos conseguiu candidatar-se à presidência do país. O povo novamente aplaudiu de pé. Seus planos eram mirabolantes. Era a bêsta que todos esperavam. Um gênio escritor domava computadores, agricultura, carros blindados, tanques de guerra e adorava fumar. Em quinhentos anos, jamais havia aparecido alguém como a bêsta. Seu ímpeto militar, sua vida de playboy, preocupado com as questões sociais de ética e moral. O mundo estava a seus pés. Era como um Maomé, que em vez de ir à montanha, saía correndo pelo país e a montanha tentava alcançá-lo.
      Mas o tempo de ouro foi acabando. Como diz o ditado, tudo o que sobe um dia tem que descer. Assim foi com aqueles precursores de novos ventos. O mundo estava em decadência em sua aldeia global, mas a bêsta continuava dizendo que seu país ia de vento em popa. E o povo se marginalizava, burlando os padrões éticos e morais que tanto batalhavam para deixar transparecer. Mais e mais pessoas se prostituíam por causa das palavras da bêsta, que influenciava as pessoas por causa do seu jeito simples, seus gestos enérgicos e sua fala complicada, mostrando uma mistura de intelectual mentecapto com jeca tatu.
      Então um dia, algumas pessoas que há muito tempo não concordavam com aquele senso ético e moral, resolveram instituir investigações sobre o que realmente era ético e moral. Descobriram empresários, bicheiros, policiais, políticos, pessoas da televisão brancos, negros, homossexuais, machões, cachorros, extraterrestres, espíritos e até demônios, envolvidos na quebra da ética e da moral. Começaram uma longa investigação onde a cada dia aparecia um culpado maior que o do dia anterior, e foram quinhentos anos de busca inssessante, descobrindo milhares e milhares de pessoas envolvidas em coisas indignas e fora do padrão social. Até que se descobriu que todo mundo estava envolvido e o tal grupo seleto, já não era seleto, pois, todos os cidadãos do país faziam parte do grupo seleto. Todos de certa forma aceitavam o que a ética e a moral daquele país ditava. Considerando-se normal os erros que se transformavam em acertos, todos festejavam com alegria toda a perversidade instalada em suas leis. Roubavam, extorquiam, corrompiam seus menores, estupravam e formavam um novo padrão social, se achando um grande país. O país do novo milênio.
      As pessoas que investigavam, descobriram que até mesmo entre eles haviam corruptos que beneficiavam àqueles que pagassem bem. Como não surgiram provas o bastante para incriminar aqueles que estavam sendo investigados, terminaram as investigações com uma bela festa da pizza. Festa que já era de grande tradição naquele país.