quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O PÁSSARO E O AVIÃO








O PÁSSARO E O AVIÃO


    Meu nome é Pompo, segundo meus ancestrais é um nome antigo originado na Grécia em homenagem ao deus Mercúrio, o Psichopompos, o condutor de almas, ou ainda, o deus mensageiro de Júpiter, que traz à Terra os mandamentos em Lei que a divina providência nos coloca à mercê. Mas como somos pássaros, não estamos tão sujeitos à Lei quanto a humanidade com seus desregramentos e desequilíbrios.




    Mas vamos à história.
    Era um dia ensolarado e cheio de nuvens, as quais, eu atravessava para sentir o frescor de suas gotas minúsculas, molhando o corpo para refrescar a longa viagem pelo território que eu estava acostumado passear em busca da minha alimentação. Esta alimentação mudou muito através dos tempos. Lembro-me que havia árvores e uma vasta vegetação de capim e sementeiras. Depois vieram outras árvores que a humanidade plantou. A chamaram de café. Experimentei mas não apreciei aquela frutinha adocicada.


    Depois do café, os humanos começaram criar ninhos de barro e se ajuntarem formando grandes sociedades humanas. Não satisfeitos com seus ninhos de barro pequenos, iniciaram a construção de enormes ninhos, às vezes, um em cima do outro. Outros ninhos enormes utilizavam para guardar os alimentos. Percebi que os humanos mudaram muito e mudaram também a paisagem que eu estava acostumado ver. De início, me lembro que eles andavam à pé ou escravizavam algum animal para servi-los de transporte. Havia alguns que moravam com a humanidade e eram alimentados por eles. Foi com esse intuito que nós pombos nos aproximamos da humanidade, afinal, nossa alimentação foi sumindo com o tempo e tivemos que acostumar com o que a humanidade comia e com algumas comidas à base de sementes moídas que os humanos chamam de ração. Mas parece que eles usam um outro tipo de ração que transformam em outras comidas como num passe de mágica.




    Depois da escravidão animal, percebi que eles resolveram criar animais de materiais tirado da terra. Construíam animais de ferro e outros minerais existentes. Estes animais eram bem mais fortes que os conhecidos. Andavam bem rápidos e a humanidade podia entrar dentro deles por uma boca geralmente lateral, parecida com as guelras dos peixes. Estes animais viviam à base de uma alimentação feita somente de um suco fétido e forte. Fiquei sabendo que muitos dos nossos irmãos beberam este suco para experimentar e morreram.




    Depois desses animais, construíram outros maiores e como se não bastasse criaram um enorme pássaro barulhento e veloz que viajava pelos ares e desaparecia no horizonte. Foi um desses grandes pássaros que me engoliu. Não abriu a boca, apenas uma de suas guelras perto da asa. Eu passava perto para tentar conversar e quando vi, estava dentro de sua barriga.




    Seu corpo era enorme e muito quente. Vi humanos conversando e sorrindo. Falando de um tal de “dólar”. Pelo jeito deve ser o deus deles agora, já que falavam dele com muita emoção, dizendo que uma hora subia e outra hora descia. Mais à frente, havia dois humanos brincando com o som do vento dentro de um instrumento de cordas. Eu achei lindo o som do vento ali dentro, mas quando o humano começava cantar dava dó. Que sons horríveis e destoantes saiam de sua boca.




    Nesse meio tempo, quase esqueci que estava dentro do estômago do bicho. Precisava arrumar um jeito de sair dali. Olhei para o fundo dos seus intestinos e ouvi barulho de animais, então resolvi ir para lá, talvez fosse a saída, o ânus do grande animal.
    Quando me aproximei do barulho, vi que estava errado. Era uma parte do intestino que havia só animais. Todos estavam presos em cadeias, daquelas que os humanos prenderam muitos de nossos ancestrais. Olhei e vi um papagaio, um pombo como eu, um cão e um sabiá. Vinham numa conversa contínua, um querendo falar mais que o outro. Resolvi então, entender a situação em ocorrência ali.
    Aproximei-me e todos me olharam com espanto.





    _ Porque você está solto? Você não é escravo dos humanos?
    _ Não eu vivo livre, mas de certa forma sou escravo de seu mundo. Alimento-me e uso de seus alimentos para sobreviver.
    _ Como pode viver fora da gaiola. Jamais entendi a vida fora da gaiola. É verdade que existe vida fora da gaiola?- perguntou o Sabiá.
    _ Ora se existe! Eu vou para onde quero e para onde eu possa me alimentar - respondi.
    _ É um tolo! Acha que já viu tudo. Aposto que não conhece os mundos do outro lado do mar - falou o pombo correio.
    _ Não cheguei a tanto, mas sou livre para ir onde quiser e como quiser-respondi.
    _ E daí? O que você aprendeu nessas andanças? A humanidade está aqui para nos ensinar. Eles são os nossos deuses! - falou o papagaio.
    _ Ensinar o que, seu papagaio besta! Você acha que falar, remedando-os, é ser como eles? Este seu modo de dizer as coisas sem saber o que está falando é pura idiotice - falou o cão que estava impaciente em sua jaula.
    _ Um aprendeu remedar as palavras humanas o outro aprendeu o vício humano. Qual será o pior? - falou o pombo correio.
    _ O que o papagaio copia? - perguntei.
    _ A humanidade acha bonito ter um animal preso em sua casa repetindo suas ladainhas e seus palavrões. O que um papagaio pode entender da vida? De se conhecer? De evolução?
    _ Talvez a busca por tornar-se semelhante ao homem o faz superior a nós - falei humildemente.
    _ Besteira! Eu conheci mais a humanidade que todos vocês juntos. Conheci outros mundos e outros tipos humanos. Uns eram grandes deuses, outros não se distanciavam tanto de nós. Eram mais medíocres que uma galinha - falou o pombo correio.
    _ No entanto está preso aqui também - falou o cão.
    _ Mas eu fui muito importante. Transportei mensagens pelo mundo, auxiliei nas guerras humanas, trabalhei quando o homem ainda não tinha o grau de civilização que tem hoje. Conheci lugares longínquos, costumes diferentes, humanos diferentes. Hoje, estou aqui nesta gaiola como prêmio da minha servidão. É a minha aposentadoria.
    _ De que adiantou você rodar o mundo, saindo e voltando para sua gaiola a vida inteira se agora continua dentro dela, achando ainda, que é um premio de gratidão. Você está louco. Mais louco que eu, que passei a vida inteira cheirando cocaína dentro de aeroportos, sendo treinado desde criança a cheirar o tal pó, que entrou em meu cardápio diário. Hoje estou viciado em coca e passo mal quando fico sem. Os humanos às vezes esquecem que me viciaram e me deixam dias sem minha droga. Continuo preso nessa jaula e continuo viciado, esperando a vida acabar nesta aposentadoria forçada, já que de um tempo pra cá até meu faro eu perdi. Viciei-me servindo a humanidade e aprendi que tudo não foi em vão, mas continuo preso até minha morte. Quem sabe então encontrarei o céu dos cachorros -discursou o cão.
    _ É muito bonito chorar as pitangas, mas eu não necessitei da nada dessas grandes descobertas. Nasci e me criei dentro da minha gaiola e conheci diversos ligares de dentro dela, mas não me atrevo a sair daqui para viver uma luta contra o mundo. Ter que procurar alimentos, ter que trabalhar para viver. Prefiro estar dentro desta gaiola e usar apenas meu talento para música fazendo com que a humanidade me dê alimento.
    Neste momento ouvi um barulho na porta daquele lugar e enquanto um homem entrava consegui fugir para um outro lugar. Lá ouvi dois homens conversarem entre si. Falavam dos animais que ali estavam e o fim que teriam. Todos pertenciam a uma tal de família X. Segundo o que diziam, todos iriam ser mortos num matadouro de animais órfãos, já que havia acabado a guerra e não necessitavam enviar mais mensagens secretas através do pombo correio. O papagaio era usado para guardar informações importantes. Era treinado para repetir tudo o que lhe diziam em código. Como sabia coisas demais, acharam melhor mata-lo também. O cão foi treinado para trabalhar nos negócios da família, que além de estar dentro da guerra, lucrando obviamente com isso, se utilizavam da influência para traficar cocaína. O cão também iria morrer para ninguém saber do seu vício. E o Sabiá, como ninguém quis ficar com ele e nem ter o trabalho de lhe alimentar, decidiram elimina-lo também.
    Percebi que o tal pássaro abriu uma das guelras e as pessoas começaram sair de lá de dentro. Aproveitei e me mandei também, antes que o bicho tentasse me digerir de verdade. E esta é a minha história meus filhos, espero que não se iludam pelo poder atrativo das gaiolas. Sua alimentação é fácil e a mordomia de nada fazer da vida é aconchegante, esta é a tendência animal de se fazer escravos por uma simples atitude de agrado. Dizem que o Diabo também agradou Adão na época do paraíso. Sejam pássaros felizes, livres de desejos fáceis e só assim estarão bem longe das gaiolas.

domingo, 2 de dezembro de 2012

ABRINDO OS PORTÕES



ABRINDO OO PORTÕES

Como se libertar de uma prisão, quando estamos gostando daquilo que nos prende? Como deixar de amar aquilo que nos é tão caro?- assim ia eu pensando, caminhando por uma das áridas ruas de dentro da enorme prisão. O gosto do sangue enchia minha boca de saliva e o cheiro, o calor daquele lugar, causava um sentimento irresistível de ficar por ali. Para onde eu iria agora? Como fugir daquele lugar? Os ferrolhos estavam muito bem fechados, porém, não havia ninguém me vigiando. Quem sabe escalar os altos muros de Herakleópolis?
_Não meu filho, nada adiantará você tentar abrir os ferrolhos ou escalar os altos muros se não estiver pronto para isso. O mundo é como a lâmpada de Aladin e todos seus desejos são realizados, só se deve saber como pedir ao gênio da lâmpada.
_Não entendi o que você quis dizer. Quem é você?
_Isso não importa agora. Tudo tem seu tempo. O momento pede que você procure o deus que está escondido dentro do seu coração, a luz que brilha mais que as trevas deste lugar. Este deus que habita em você consegue abrir os ferrolhos dos portões, não só para você passar, mas, para muitos outros que queiram te acompanhar.
_Como encontrar este deus? Onde olho, vejo a penumbra se estender em todos os corações e as pessoas entram nos seus casulos esperando que algo do lado exterior faça o milagre por eles. O que devo fazer para despertar o deus?
_ Se você coloca uma barra de ferro encostada na parede e a deixa ali por anos, sofrendo os poderes na natureza, esta barra ira se enferrujando até se dissolver. Se você constrói um castelo, quinhentos anos no futuro ele será apenas ruína de um monte de matéria decrépita. O seu corpo perde o vigor da juventude, seus olhos já não enxergam, seus dentes já não mastigam, suas pernas já não andam. Então pense! Qual a razão de correr atrás de tanta coisa temporal? Coisa que existe enquanto você existe, coisa que amanhã pode não existir mais, ou coisa que fica enquanto você vai embora.
Quando você percebe que sua vida está passando a cada dia, e você na realidade, não está fazendo nada a não ser correr atrás de coisas deterioráveis, se esquecendo que o mundo é um constante mudar, então, percebeu o que seu deus interno quer mostrar. Enquanto seus olhos forem atingidos pela penumbra do mundo, não conseguirá enxergar a luz que irradia do seu coração, querendo mostrar o amor que vive ali, que quer transbordar e ungir todos os que tiverem o desejo de unção.
_Qual a finalidade de se seguir esta luz?
_ Ora, a finalidade da luz é o amor, é a bondade. A luz aqui é tida como purificação dos seus desejos impuros, seus pensamentos impuros, seu agir impuro. A luz apenas ilumina o caminho da escuridão que cada um se encontra, não importa se é cético, fanático, religioso ou ateu. Todos têm seu deus dentro de si e buscam por um ideal. O ideal pode ser puro ou impuro. O que purifica sempre leva as pessoas aos braços da harmonia. O impuro é o que causa a desarmonia. Existem os que adoram violência. É um fato comprovado em todas as épocas do mundo. Entre estes, sempre surgiram aqueles que se destacaram pela sua pureza e harmonia. Todos admiram os grandes iluminados. Admiram, mas preferem ser impuros.
Levante-se! Erga-te! Olhe para a luz e busque-a dentro de si, e, quando conseguir enxergar a sua luz, verá que existe luz em todos. Só deve ser descoberta para depois brilhar.
ACREDITE EM SI MESMO, O PODER DA VONTADE REMOVE OS OBSTÁCULOS!!!