terça-feira, 23 de julho de 2013

UM DESERTO SEM LUA




A noite estava quente, mas, mesmo assim decidi sair para uma caminhada pelo deserto. Algo me fazia sentir vontade de caminhar sem rumo na escuridão iluminada pelas estrelas, no meio daquele deserto tão convidativo.Era lua nova aquela noite, mas o céu estava lindo. Gotejado em seu azul escuro com as luminárias do universo.
Vi ao longe uma luz dourada, ofuscada na escuridão.
_ O que seria_ perguntei com a voz do silêncio.
Como bom caminhante, decidi alimentar minha curiosidade pecadora. Ao chegar perto, percebi que havia um encruzilhada, mesmo estando no deserto.
_ Uma encruzilhada e dois caminhos? Que estranho é a imaginação no meio do deserto. Deve ser miragem - pensei.
_ E o que não é miragem? - respondeu uma voz rouca, atrás de mim.  



Olhei assustado e me assustei mais ainda quando dei com a cara de um camelo bem próximo a mim, com seus olhos esbugalhados me olhando e mascando suas regurgitações.
_ Você fala? - perguntei assustado.
_ Você também - me falou irônico. E continuou.
_ Neste mundo de miragens tudo fala. É só querer ouvir. O problema é escutar e não dar ouvidos.
_ E você sabe  o que são estes dois caminhos no meio deste deserto?
_ Existem dois caminhos na sua frente. Um é o caminho com pedras de ouro. O Senhor do lucro e da riqueza pavimentou o caminho para aqueles, que sabendo como, trilham-no  com a mágica força da vontade, que insaciavelmente, caminha. Não contente com o caminhar, anda com pressa. E põe-se a correr na velocidade com que seus pensamentos vão criando outras formas de gerar lucro e riqueza. 
Não há limite para o veloz Senhor do Lucro, pois, ele quer que tudo vire ouro, tal como Midas. Porém, seu palácio é destrutivo, já que haverá um momento que sendo tudo ouro, este tudo, não passará de acúmulos de ilusão. 


O outro caminho é o de pedras. Algumas tão sutis. Mas que nos derrubam por estarmos tão seguros de sermos gigantes, grandes Golias. Mas esta estrada de pedra é muito difícil de trilhar. Às vezes dói, às vezes cansa. Até eu, camelo, sinto sede. Mas seu fim é perto de uma fonte de águas cristalinas. Ali, já não é deserto. É um lugar bonito e verdejante, aonde muitos foram para ajudar construir um templo. Neste caminho vamos recolhendo as pedras que tropeçamos para auxiliar na construção deste templo maravilhoso. Mas cada pedra que carregamos conosco, mais leve nos deixa a sacola.
_ Poxa! Então eu gostaria de ir por esse caminho de pedras - falei feliz, porque, pela primeira vez senti que gostaria de fazer parte de algo muito belo.
_ Porém, antes de entrar neste caminho é necessário passar por sua entrada - falou o camelo.
_ Onde está a entrada? Só vejo o caminho - falei.
_ Não te seja enganosa a facilidade de entrar - disse o camelo, que ainda ruminava algo. Então regurgitou uma agulha e me deu.
_ Esta é a passagem. O buraco de agulha - falou.
_ Mas como vou passar por aqui?
Então o camelo pediu para colocar a agulha fincada no chão. Diminuiu de tamanho e passou. Desaparecendo dali e surgindo ao longe no caminho.


_ Me chamo humildade. Somente comigo poderá entrar nesse caminho. Estás disposto a me seguir?
_ Sim, estou. Só não sei como.
_ Pegue a sacola que está no chão. Vista esta sandália ao seu lado.
Peguei a sacola e vesti a sandália. quando dei por mim já estava do tamanho do buraco da agulha. Atravessei para o outro lado. Então pude ver melhor a Humildade. Era uma bela mulher vestida de azul com estrelas que cintilavam ao seu redor. Seus apoiavam sobre a Lua. Entendi então porque não havia Lua no céu. A Humildade, na realidade, era a Sabedoria disfarçada e o que cintilava não eram estrelas, mas sim, a luz do amor pela humanidade, que mesmo não sabendo, sempre está aos olhos da Sabedoria. E que mesmo vendo não enxergam. E mesmo ouvindo não escutam. A presença da Verdade.