sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A MORTE DO ALQUIMISTA


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  Pedro era um rapaz curioso. Sempre atrás de descobrimentos da ciência e de assuntos ligados ao ocultismo. Quando conheceu o espanhol Juan Pablo, jamais achou que sua vida mudaria tanto. Conheceu e se fascinou por aquele homem estranho, vestido de roupas escuras que pareciam combinar com sua barba e cabelos negros. Sobrancelhas fechadas e um olhar penetrante. 
  Talvez Pedro teve um certo receio em se aproximar de tal homem. Mas o receio não deixou de notar um anel, que parecia ouro, no indicador do homem. Havia nele um dragão...ou seria um leão. Não saberia dizer. E foi desta forma que Juan Pablo entrou em sua vida.
   _Gostas de joias?
   _Não que eu goste. Me chamou a atenção.
   _Muitos se fascinam por esta bela joia  É muito antiga. Muitos já morreram por ela.
   _Então é muito valiosa?
   _Depende do valor que lhe dão. O ouro é valioso, mas o que ela representa não tem preço, pois, guarda muitos segredos que somente os que sabem o seu uso saberão.
  A noite estava escura e fria, e, Juan Pablo ficou em conversa com o jovem Pedro. Estavam em um pequeno bar do centro da cidade. As prostitutas e os bêbados entravam e saíam. Mas a conversa foi até o Sol raiar. Pedro se impressionou com as histórias contadas pelo estrangeiro. Principalmente coma história de fazer ouro.
   _Mas o senhor consegue transformar coisas em ouro?
   _Este anel foi gerado assim.
   _E como eu poderia aprender esta mágica?
  _Não é mágica. Esta arte se chama Alquimia e é muito antiga. Gostarias mesmo de aprender?
   _Sim, gostaria.
   _Eu poderia te ensinar se trabalhar para mim.
   _O que eu tenho que fazer?
   _Dar-te-ei meu endereço. Estejas lá logo cedo. Abra a porta sem barulho. Encontrarás seis pares de botas. Pode engraxa-las,  deixando-as brilhando. Depois, encontrarás um rolo de fumo no canto esquerdo da sala. Corte um dedo e pique-o. Coloque dentro de um cachimbo que estará próximo à estante com livros. Tire o trigésimo terceiro livro da quarta carreira de cima para baixo e coloque-o encima da mesinha em frente à poltrona. Abra o livro na página sessenta e seis. leia o sexto parágrafo em voz alta. Espere por quinze minutos e abra o açucareiro em sua frente. Esta será sua tarefa neste primeiro dia.
  Pedro foi para sua casa, tentou se lembrar de tudo que Juan Pablo havia lhe dito. Não conseguiu dormir diante desta história esquisita. Mas preparou-se a noite toda para ir ao local bem cedo e fazer tudo o que foi dito.
  Era ainda escuro quando Pedro chegou ao local do endereço. Havia uma casa antiga, porém, conservada e bem limpa. Parecia que os metais brilhavam naquele lugar. Era um brilho que transcendia o normal, aquilo que estava acostumado em seu dia a dia. Pedro subiu uma escada de madeira muito grossa e parou em frente à porta. Viu nela uma inscrição: "El alma, todavia respira". Achou estranho, mas ficou com a frase na cabeça. Que seria aquilo?
  Entrou. Era uma sala muito aconchegante, com uma estante de livros até o teto. Meio escura de fato. Mas as luminárias de cristal davam uma beleza diferente ao local. Procurou com os olhos a mesa. Era uma mesinha, talvez, só para leitura. Observou num canto alguns aparelhos desconhecidos. Para que serviriam? Lembrou-se da sequência. Engraxou as botas, que ficaram muito bem engraxadas. Picou o fumo e colocou no cachimbo. Procurou na listagem o livro e o retirou. Olhou suas páginas até encontrar a sessenta e seis e o parágrafo. Então leu em voz alta:
   
   "O que reluz é ouro,
     O vil metal das almas em agouro,
     Sedentas em sua penúria, à riqueza,
     Perdendo sua alma e sua beleza".
    
   Não entendeu o que leu. Mas abriu o açucareiro. Dentro dele havia uma velha moeda de ouro maciço e um papel escrito.

    "Retire a moeda e vá embora". 

   Retirou a moeda e foi-se. Foi em seu caminho observando tal moeda. Era muito antiga, Talvez, de uma época perdida no tempo. Com medo de alguém ver, guardou rapidamente e foi direto para casa. Não dormiu naquela noite.
  No outro dia chegou no mesmo horário. Abriu a porta e se deparou com outra pessoa dentro da sala. Era Ferdinando, um senhor de meia idade e que havia migrado da Argentina à algum tempo. Os dois se assustaram. Talvez com a surpresa de ver outra pessoa na sala, ou, querendo saber o que o outro estaria fazendo ali.
  Então surgiu um outro homem. Este  vestido de médico, ou talvez, com roupas de laboratório. Estava com uma expressão de quem se assustou com alguma coisa, ou, espanto por ver mais duas pessoas ali. Disse:
  _O que se tem pra fazer está anotado neste caderno de capa preta encima da mesa - saiu sem olhar para trás.
  Pedro resolveu ver o que tinha no livro. Havia um monte de símbolos ilegíveis no início. Depois, a data daquele dia confuso e o nome Ferdinando seguido do de Pedro. 
    Para Ferdinando ele pedia para picar o fumo e levar as cinzas do cachimbo para fora. Enquanto a Pedro, pedia para engraxar as botas.
   Ferdinando foi para fora sem querer deixar Pedro sozinho na sala. Quando saiu, Pedro não titubeou. Correu ao açucareiro e abriu para apanhar outra moeda. Mas não havia nada dentro. Será que o outro já tinha pego sua moeda?
    Ferdinando voltou. Pedro nem esperou.
    _Onde está a moeda?
    _Que moeda?
    _A minha moeda do açucareiro, me devolva!
  Ferdinando correu para a estante abriu um potinho e gritou exasperado.
    _Onde está o anel?
    _Que anel?
    _O anel de ouro que estava aqui?
    _O medico deve ter roubado!
    _Não. Eu cheguei primeiro que ele aqui.
    _Onde estarão então. Será que não está em outro lugar?
    _E as palavras mágicas? Tem que falar as palavras!
    _Verdade. O livro da prateleira.
    Procuraram o livro, mas não estava lá.  Então decidiram procurar pela casa. Olharam todos os lugares. Cozinha, banheiro, quartos, a sala e os livros. Nada.
    _Existe um porão - disse Ferdinando. Deve ter sido escondido lá.
    Desceram ao porão e quase caíram da escada quando viram Juan Pablo estendido no chão com os olhos vidrados e a boca roxa. Não sabiam se chamavam a polícia ou procuravam as relíquias. Pedro notou que o anel não estavas no dedo do morto. Olhou para Ferdinando e percebeu o que seus olhos diziam. Então, procuraram ali também as relíquias. Foi quando acharam um papel escrito por Juan Pablo:

  "Uma pessoa me matará. Ele chegou cedo e engraxou minhas botas. Cortou fumo. Colocou no cachimbo. Encontrou o livro mágico que lhe deu o fruto do seu serviço. Sua ganância fez com que minha vida tirasse, e perdesse assim, o grande segredo da alquimia. O de transformar chumbo em ouro".

    Pedro chegou, e talvez, fez tudo isso e perdeu o segredo.
    Um dia antes Ferdinando fez as mesmas coisas.
  O médico, na realidade, não era médico e nem trabalhava em laboratório, mas colocou o jaleco com medo de ser contaminado pelo que matou o homem. Seu nome era José. Não passava de outro ganancioso.
   _A principio todos são culpados - disse o policial, que chegou logo depois trazendo José de volta. Foi apanhado quando ia saindo da casa.
   O legista deu causa-mortis  por envenenamento. Porém era um veneno raro e muito antigo, usado pelos velhos alquimistas quando necessitavam silenciar algum segredo. muitas vezes, com o suicídio. Será?
  Aquela voz suave e penetrante ficou parada nos ouvidos da atendente de plantão policial:

    "Da velha arte compartilhada com ciganos,
      O homem caiu em seu maior engano,
      O amor por aquilo que se vai,
      Faz o homem voltar para o mesmo lugar,
      A pedra transformada precipita  e cai,
      Voltando ao mundo como algo vulgar,
      E nesta manhã morrerei por mão em ânsia,
      Vítima dos erros e dos olhos da ganância".
                                     
                                        (Juan Pablo de Leon)

terça-feira, 13 de agosto de 2013

CONTO DE FIM DE SÉCULO

                                                 



                                                    CONTO DE FIM DE SÉCULO
                                                       (Um conto para a eternidade)


    Olhei no chão e vi um corpo sem vida e que pelo jeito não voltaria respirar. Sim, era realmente o meu corpo que jazia ali. Compreendi que tinha morrido e comigo todos os meus desejos e minha felicidade maior, a vida. Logo eu que adorava viver e aproveitar todos os momentos ao máximo. Em meus devaneios comecei lembrar de toda minha vida e de toda trajetória de momentos que foi meu caminho como um ser vivente. Lembrei-me da infância pobre e complicada, onde, com tanto esforço meus pais conseguiram criar toda aquela quantidade de filhos. Lembrei-me da adolescência, quando saíamos pelas matas atrás de passarinhos e aventuras. Da minha época de namoro, as várias mulheres que conheci e os vários lugares por onde passei. Enfim, chegou a idade de homem e a idade na qual me transformei em pai. Logo eu, que jamais pensei em se casar.
    Bom, estava eu pensando em tudo o que havia passado vivo, quando surgiu dois rapazes com cara de anjo, isto é, no meu âmago algo dizia que eram anjos. Não tinham asas, mas seus olhos brilhavam e não andavam no chão como nós humanos. Percebi que vinham de um túnel muito iluminado, que parecia uma porta para outra dimensão. Compreendi que devia ir com eles e atravessar por aquela luz, descobrir o que tinha do outro lado.
    Os anjos me levaram para uma sala muito branca e espaçosa. Ao fundo, havia uma mesa com vários lugares para sentar e no meio, uma cadeira semelhante a um trono. Lá estava um homem ou um anjo semelhante ao homem, porém, era branco, de uma brancura maior que a dos albinos que fazem parte de nossa terra. Tinha os cabelos e a barba branca, e de tão branco chegava emitir luminosidade, que se refletia em sua roupa, que também era branca.
    Um dos anjos cochichou em meus ouvidos me dizendo que aquele era o rei dos anjos, ao qual, os homens chamam de Iluminado, Ungido. Havia surgido em vários pontos da Terra espalhando suas mensagens de amor e paz. Alguns o conheciam como Buda, outros como Krishna, ainda outros como Jesus, além de ter surgido com outros nomes menos conhecidos, porém, ensinando sempre a mesma idéia, o amor.
    Olhei para aquele ser e percebi em sua face a jovialidade e a pureza, junto com um ar de compreensão e justiça. Era realmente o grande mandante de todas as possibilidades de transformação mundial.
    Quando cheguei não havia tomado conta de quanta gente estava ali comigo. Havia pessoas de várias raças. Negros, japoneses, indianos, louros, morenos. Havia também budistas de várias facções, cristãos de vários caminhos filosóficos, espíritas, masdeístas, maometanos, enfim, pessoas de tudo quanto é tipo. Todos haviam chegado ali por causa dos seus passos retos na Terra. Mas e eu? Porque estava ali se na vida não fora nada santo?
    Enquanto eu me perdia em minhas indagações, eis que surge na porta outro ser. Este brilhava de tal forma que não pude fixar o olhar em sua face. Um dos anjos me cochichou no ouvido que se tratava do Pai. Sim, era Deus em pessoa! Então, me amedrontei e comecei rever todos os meus erros e o meu passado. Enquanto isso, Ele se sentava acomodadamente no trono, mandando Jesus procurar outro lugar para sentar. Ainda brincou, desfazendo um pouco a cara carrancuda, dizendo a Jesus.
    _Estais também querendo tomar seu lugar?
    Jesus sorriu e olhou para o canto esquerdo da mesa onde estava sentado um anjo carrancudo e emburrado. Este se vestia todo de preto e em sua mão trazia uma bengala e o seu chapéu. Novamente o anjo que me acompanhava cochichou ao meu ouvido:
    _ Este é Lúcifer, o anjo que quis passar a perna no Pai, mas esta aqui porque o Pai lhe deu um dos seus reinos para comandar.
    Eu já estava atordoado com tanta gente e tanto movimento, não conseguindo entender o que sucedia ali. De repente ouviu-se a voz do Pai, atordoando todos que ali estavam:
    _ Vamos iniciar o trabalho de aplicação da Justiça Divina, trabalhando as coisas como devem acontecer deste dia em diante, já que ninguém entendeu o que seu discípulo João tentou explicar, não é Jesus.
    _ Mas meu Pai, João escreveu tudo o que podia para aqueles incrédulos. Somente alguns conseguiram entender-falou Jesus tentando se explicar.
    _ Mas falou de um jeito que as pessoas não conseguiram assimilar. Olhe lá para baixo e veja a baderna que está. Tem gente roubando e enriquecendo com seu nome. Gente defendendo os pobres e oprimidos com o intuito de ganhar méritos ou ser reconhecido como grande personagem no mundo-esbravejou Deus.
    Então vi entrar pela porta um outro homem. Este não era semelhante aos anjos, mais se parecia comigo, com a pobre humanidade desorganizada. Novamente o anjo cochichou em meu ouvido. Dizia que o homem era a encarnação de João e que ainda vivia na Terra. Precisamente como Presidente do Brasil. Segundo as más línguas, veio através dos tempos falando coisas que ninguém conseguia entender. Depois de ser João, veio na idade média como Dante Alighieri, escrevendo a “Divina Comédia”, porém, novamente ninguém o entendeu e achou sua obra grandiosa, mesmo sem entende-la. Depois voltou como Freud. Cansado de falar e ninguém entender, voltou e tentou explicar tudo através da Psicanálise. Mas novamente, alguns separatistas achavam que ele estava errado.
    Agora voltava para ajudar nos planos do fim de século. Cansado de não ser entendido, decidiu fazer apenas o que a Justiça Divina lhe desse como missão. Foi o que aconteceu. A Justiça decidiu que ele voltaria à Terra sendo presidente do Brasil e tentar endireita-lo.
    Mas vamos voltar ao céu para não magoar ninguém.
    _ E então João, a humanidade conseguiu entender você?- perguntou Deus.
    _ Meu Senhor, escrevi o Apocalipse, cheio de chaves e símbolos que sempre foram parte da minha natureza, mas, era bastante legível para quem quisesse entender. Mas a humanidade não gosta de pensar. Voltei como Dante, e novamente escrevi sobre a espiritualidade maior, sobre os diversos mundos, tentando colocar um pouco mais de idéias dentro das cabeças humanas. Logo, estava eu novamente perseguido e injuriado. Como Freud, resolvi explicar a mágica influência da energia sexual, que os hindus chamam de Kundalini, os cristãos de Espírito Santo, através de uma abordagem científica. Porém novamente a essência do meu trabalho não foi considerada. Então deixei nas mãos da Justiça Divina, que levou encarnar no Brasil, como presidente daquele país. Mas além de não me entenderem e não entenderam a posição em que o país se encontra, ainda acreditam que eu estou governando divinamente, levando o país para a ordem e o progresso estampados na bandeira.
    _ Resumindo, você não conseguiu passar sua mensagem-falou Jesus.
    _ Ai meu Jesus! É tão difícil para eles entenderem. Eu acho que aquele que está na última cadeira do lado esquerdo anda trabalhando mais que nós ou o homem prefere copiar seu modo de ser-falou João se referindo a Lúcifer, que desta vez sorriu com um ar de deboche, quase dizendo: “eu venci”.
    _ Basta de palavras! Chegou a hora do julgamento. Chamem os Anciãos que vamos colocar a justiça em dia!
    Enquanto Deus falava, todos que ali estavam estremeciam, vendo que Deus estava realmente irado e com a ira divina, ninguém brinca. Chegaram os Anciãos, todos vestidos de branco, com suas longas cabeleiras e suas barbas brancas, porém com o rosto jovial, parecendo ter parado no tempo.
    Então os anjos que me acompanhavam me levaram para grandes bancos que ficavam um pouco mais longe do trono e da mesa, onde ao que parecia, a maioria das pessoas estavam. O anjo novamente me cochichou no ouvido, dizendo que na mesa diante do trono ficavam apenas os espíritos totalmente puros e que já haviam se libertado de todas as superstições e idolatrias criadas pelos homens. Mostrou-me também alguns dos que estavam na mesa. Havia um grandalhão do lado de Jesus com um livro nas mãos. Segundo o anjo, aquele era Pedro, que havia voltado a Terra como Martinho Lutero, tentando endireitar o caminho que seus sucessores entortaram. O livro que trazia se tratava dos julgamentos de todas as igrejas cristãs. Desde a católica romana, passando pela anglicana, pela ortodoxa e culminando nas várias facções do protestantismo. Pedro estava cabisbaixo, pois assim como João, viera à Terra tentar redimir os homens de sua ganância, mas descobriu que a riqueza sempre falou mais alto que a espiritualidade. Foi obrigado pela Justiça Divina redigir leis que compõem o julgamento das seitas e religiões.
    Olhei para o lado esquerdo da mesa, Lúcifer parecia estar mais feliz ainda. Eu podia até ler seus pensamentos maquiavélicos. Tudo como ele organizara, tudo como ele garantira durante tantos anos, estavam dando vários frutos. Vi perto dele outro homem vestido de escuro e indaguei. Quem será aquele que está feliz junto ao demônio. Fiquei pensando... Hitler? Napoleão? Judas?
    São todos eles ao mesmo tempo-falou o anjo fofoqueiro. Judas se matou depois de trais Jesus. O Diabo gostou tanto dele que lhe deu várias vezes a chance de voltar à Terra para fazer estragos. Veio na inquisição para deturpar as regras de igreja. Logo depois, encarnou-se como Napoleão levando o mundo curvar-se aos seus pés. Encarnou-se como Hitler, trabalhando como nunca foi visto em prol da magia negra. Agora ainda vive, atravessou o mar e está onde vive a liberdade, já que tal liberdade é pretexto para causar mais danos.
    Falando isto, o anjo retirou-se de perto de mim e foi sentar-se do lado dos outros anjos de sua mesma espécie espiritual. Então, sentei-me meio distraído, olhando ainda na mesa para ver o que aqueles espíritos decidiam sobre a Terra, quando olhei de lado e quase cai do banco. Sentado ao meu lado estava um homem com bela roupa acetinada e na cabeça um pequeno chapeuzinho vermelho. Eu o reconheci, mas olhei em suas mãos e em todo seu figurino e não consegui achar nenhum dos seus adornos de ouro. Achei que não era quem eu pensava ser. Não resisti e perguntei seu nome para ter certeza.
    _ Me conheceram como “De Labore Solis” em nosso mundo-disse o homem.
    Lembrei-me então de ter ouvido falar de tal homem relacionado às profecias de São Malaquias. Foi um homem justo e que viajou pelo mundo pregando a paz e o ecumenismo. Mas diante de tantas provações, não pôde abdicar da elegância e do luxo a ele reservado. Falhou em suas mais difíceis provações, talvez por ser ainda de uma atitude conservadora ou por existir forças ainda maiores que lhe comandavam as decisões. Mas ali estava em espírito, aquele homem que tantos reverenciam.
    O julgamento continuava e de vez em quando dava para ouvir alguns trechos, que nos aterrorizavam, pois, éramos platéia e artistas daquela trama toda. Fiquei pensando em toda aquela gente que passava fome e acabava se corrompendo diante da miséria, pessoas que nunca ouviram falar de religião, ou às vezes, até de Deus. Será que todos necessitam passar por estas hecatombes do final do século vinte?
    _Isto é uma farsa! Eu não acredito que Deus depois de ter construído todo este maravilhoso orbe celeste, desejaria destruir por causa de nós humanos-falou um homem também sentado próximo a mim.
    Quem é você? Não está vendo que é tudo verdade, que é o fim da Terra e de seus homens orgulhosos?- perguntei mais pelo medo do que pela indignação.
    _ Eu fui Tomé, o que duvidou e sempre duvidará. Não encontrei no mundo algo que me fizesse deixar minhas convicções para acreditar em coisas incertas.
    _ Você não esteve com Jesus? Isto não basta? Ver sua vida e seus milagres de nada adiantou?
    _ Nada adiantou! Houve milagre, ressurreição de Lázaro, crucificação e o mundo tornou-se pior do que estava. No mundo eu não aprendi nada tão grandioso para vencer minhas superstições
    Jesus olhando lá da mesa de julgamento falou à Tomé com um tom forte de voz:
    _ Tomé! Você ainda não aprendeu que existem coisas inexplicáveis à limitada percepção humana. Veio tantas vezes à Terra, descobriu coisas inexplicáveis, construiu inventos que levaram o homem viajar pelo espaço, descobriu o uso da eletricidade, das energias nucleares e ainda não acredita nas coisas do céu? Se não entendes as coisas da Terra como irá entender as coisas do céu?
    O julgamento havia parado, pois, alguns dos anciãos queriam fazer um lanche antes da conclusão do plano final. Nisto, os anjos que me trouxeram, foram para perto de mim, com um ar de seriedade nas faces.
    _ As coisas não vão muito bem. Os anciãos resolveram que a maioria dos homens devem ser tragados pela ira divina. Já não existe uma forma de controlar o carma adquirido por eles. São tantas atrocidades que o diabo e sua legião de demônios estão até aumentando o espaço em Dite, a metrópole do inferno. Se você acha que a China tem gente, precisa então conhecer Dite.
    Mas não existe uma forma de contornar a situação?
   _ Sim, Jesus teria que voltar à Terra e explicar mais uma vez tudo o que o homem deve entender, e desta vez, não ocultar nada, falar abertamente para ver se pelo menos alguém entende.
    _ E por que ele não volta?
    _ Trauma. Jesus ficou traumatizado da última vez que veio à Terra. Não acreditava que as pessoas eram tão imbecis a ponto de quererem destruir o próprio planeta, o que hoje está conseguindo gradativamente. Viu o homem construir o avião e acreditou que seria benéfico o ser humano poder voar. Porém, chegaram as guerras e tudo se transformou em armas. Vi a descoberta da energia atômica e acreditou que desta vez o homem iria dar um grande salto em sua evolução, usando energias para o benefício de todos. Então vieram as guerras e bastou duas únicas explosões para que o mundo caísse em desgraça, voltando ser a mesma humanidade cheia de ódio e rancor que vive desde os tempos de sua crucificação. Em síntese, acredita-se que mesmo que seja pregado novamente palavras de paz, a humanidade seguirá sua mente cheia de egoísmo, deixando que a justiça divina se encarregue da sua evolução desarmonizada e infeliz.
    _ Mas na Bíblia, ele diz que voltaria para nos ajudar. Para mostrar o caminho verdadeiro a todos. Não devemos acreditar nisso?Nas profecias vindas do alto?
    _ Ele nunca os abandonou. Esteve entre os padres jesuítas que salvaram índios da morte. Esteve entre alemães que se esforçaram para salvar judeus do holocausto. Do lado de Gandhi quando este enfrentou o governo inglês. Entre os americanos que perderam a guerra do Vietnã. Sempre esteve presente de forma sutil para que o homem andasse com seus próprios pés. Agora resolveu por tudo nas mãos de seu Pai e obedecer-lhe as ordens. E pelo que me parece, o fim está próximo.
    Soaram as trombetas e novamente os anciãos entraram na sala e logo depois o Diabo, que estava com a boca cheia de macarrão e na mão, um copo de aguardente, dizendo que haviam dado a ele numa encruzilhada para que amarrasse o casamento de uma beata com o padre da igreja da comunidade que ela freqüentava.
    _ Estes humanos fazem cada coisa. De domingo a beata vai à missa para reparar nas pessoas que ali vão. Depois, vai se confessar com o padre aproveitando para lhe contar os seus desejos mais picantes. De sexta feira, vai para a encruzilhada oferecer porcariada para o Exu. O padre, por sua vez, adora quando tem na primeira fila uma fiel de saia para olhar sua calcinha. Adora o confessionário, onde pode ouvir a vida de todo mundo e tirar vantagem do que sabe. Sua missa é uma farsa. É o lobo vestido de ovelha. Eu adoro quando agem assim, é nestes momentos que vejo meu império crescer-falava o Diabo, olhando para um dos demônios que estava com ele.
    Fiquei com tanta raiva do chifrudo que resolvi dar-lhe um tombo. Quando ele passou perto do banco, estiquei o pé em sua frente, e ele distraído em suas vanglorias, espatifou-se no chão. Foi riso por todos os lados. Até Deus em sua fisionomia árdua, retirou um risinho daqueles que dizem tudo.
    Começou novamente o Julgamento e o veredicto sairia logo. Todos estavam pensativos, porém eu, estava ali não sei fazendo o quê. Resolvi querer espiar mais de perto, afinal, tratava-se também do meu julgamento. Fui sorrateiramente para perto da mesa, desobedecendo às ordens angelicais e quando estava passando perto de Judas, eis que o desgraçado também me passou o pé, caindo encima de Paulo, o apóstolo, que estava sentado perto de Jesus.
    _ Eh gentinha medíocre!- falou Judas, sabendo que foi eu que havia passado o pé no Cão.
    _ O seu filho da... Estava eu dizendo quando Paulo meteu a mão na minha boca.
    _ Caro irmão, aqui não se deve dizer palavras de tão baixo escalão. Lembre-se que Judas é um irmão que se desviou de seu caminho-falou Paulo com uma voz suave, que eu quase adormeci em seus braços.
    _ Mas pode voltar ao seu lugar que já está pegando mal você no meu colo-falou novamente, me levantando do seu colo e me empurrando para que eu voltasse ao meu lugar.
    _ Mas por favor, eu gostaria de participar deste julgamento. Eu também faço parte do réu. Eu quero me inocentar frente a vocês-falei tentando dar um jeito de escapar da ira divina.
    _ Se é tão bom assim então se inocente. O que você fazia quando à noite pulava o muro da vizinha?- falou Pedro, querendo me ferrar.
    _ Bem, isto não vem ao caso-falei meio sem encontrar palavras.
    Pedro olhou para mim e deu um risinho sarcástico, querendo dizer: “te peguei seu trouxa”. Isto me deixou irritado, no que lhe dei o troco.
    Pelo menos nunca neguei, neguei, neguei ninguém.
    Então Pedro se enfureceu e levantou-se da cadeira. De pé Pedro era bem maior. Tinha quase dois metros de altura e uns cento e cinqüenta quilos. Lembrei-me na hora de uma forma de lhe conter.
    _ Lembre-se Pedro! Quando alguém bate numa face, você deve dar a outra-falei olhando para Jesus, que sorriu e olhou para Pedro, que se sentou olhando para mim com vontade de me pegar.
    _ Sente-se aqui Homem-convidou-me o próprio Jesus que materializou uma nova cadeira para que eu sentasse.
    _ Eu acho que não devo sentar, eu não sou digno.
    _ Cacete! (nisso caiu um trovão). Primeiro vem bisbilhotar e atrapalhar o Julgamento e depois diz que não é digno! Vai pro inferno!- falou exasperado o Diabo, querendo que o Julgamento terminasse logo, já que estava levando vantagem.
    Jesus então me puxou e colocou na cadeira me pedindo que colocasse meu ponto de vista. Então me preparei, pedi ao meu anjo da guarda que me desse inspiração, pedi à Jesus, à Virgem santíssima. Só não pedi à Deus, que continuava carrancudo. Querendo terminar logo o Julgamento.
    _ Senhores! Olhem para aquele espírito que está no fim da mesa do lado esquerdo. Vejam dentro dele a ignorância primordial. Ele tem o conhecimento intelectual devido aos anos que se passaram. Mas eu vejo dentro dele mais um ser perdido, sem saber o que faz, não tendo consciência do mal que faz para si e para os outros. Enquanto seus irmãos dirigiam as coisas mais difíceis do Universo, este preferiu ficar pensando em que podia fazer de vingança contra Deus e os homens. Enquanto Jesus mostrou o caminho de um novo mundo rumo à evolução, o Diabo preferiu levar a maioria para julgamento. Isto tudo porque? Pura ignorância. Falta de entendimento do que é o mundo. Não entende que o mundo é uma obra de arte, uma obra de amor. Para ele, isto tudo é forma de poder. Poder o quê? Desafiar as ordens estabelecidas? Vencer os egos mais fracos? Escravizar? Até quando? Mal sabe o tolo que o maior escravo é ele. Escravo de suas convicções, de seus dogmas imutáveis. Mas até quando? Um dia ele verá que todas as suas convicções, todo seu poder, seus dogmas, seu domínio mental, todo mundo criado através de sua mente diabólica o levou por um caminho insípido e sem emoção. E o pior, vai perceber que na realidade está ajudando outros seres evoluírem através de seus erros. Quanto mais o Diabo erra mais os homens aprendem e evoluem. De tão mal que o Danado quer ser, acaba se tornando bom. Então se uma criatura como esta, que ajuda sem saber que ainda tem chances de elevar o Universo para um novo patamar, o que se pode dizer da humanidade? Esta humanidade que em sua maioria é ignorante e sem intelecto. Não tiveram a chance de poder pensar com os espíritos mais altos. Então se aliam aos mais baixos, que dizem que o lucro é mais importante que a miséria, que passar a perna em alguém para subir na vida é mais importante que o amor, que as guerras são mais importantes que a paz, que as religiões são mais importantes que o ecumenismo. Esta humanidade sofre em seu âmago. Não conseguem enxergar o amor que se encontra escondido dentro do peito e têm vergonha de procura-lo e demonstra-lo. São os mesmos que crucificam você, Jesus. Os mesmos que deixaram de acreditar em você, Lúcifer, e me você, meu Senhor. Desculpem-me a intimidade com todos vocês, mas os humanos ainda são os mesmos para quem foi pedido que o senhor os perdoasse, pois, não sabiam o que faziam e ainda estão longe de compreender como é o andamento do Universo. Por tudo isso eu peço em oração à Deus, ao Cristo, à todos os espíritos puros. Perdoe nós homens, perdoe o Diabo, pois ainda não sabemos o que fazemos-terminei eu, desabafando meu peito angustiado.
    Depois que terminei de falar houve um silêncio enorme na sala. Alguns cochichavam. Olhei para o diabo e ele olhava me fulminando com os olhos. Achou que eu o estava insultando. Olhei para Paulo, e este, estava de cabeça baixa em oração. Então Deus falou:
    _ Vá para seu lugar! Agora a coisa é conosco.
    Saí meio com a perna bamba, tomando cuidado para não levar nem um trupicão e sentei-me ao lado do famigerado “ De Laboris Solis” novamente. Ele me abraçou e me pediu perdão, e eu, lhe beijei as mãos.
    Novamente os anciãos, os apóstolos que faziam parte da mesa, os espíritos puros, Jesus, o diabo e Deus, juntaram-se para decidir os últimos planos. Vi quando saiu pela porta da cozinha celestial uma linda mulher. Não que ali não havia nenhuma. Mas aquela tinha algo mais que uma mulher. Era angelical, doce e simples. Estava vestida com uma linda túnica branca e pisava mansamente pelo chão. Aproximou-se da mesa e chamou Jesus.
    _ Não posso agora mãe! Estamos decidindo qual será o futuro do mundo- falou Jesus passando a mão suavemente sobre a barba.
    _ Mas Jesus, o que é mais importante que ajudar a mãe fazer os preparativos para o Natal? Você sabe que todos os anos eu gosto de sair pelo mundo espalhando poções de amor para a humanidade-falou a mulher, que agora eu sabia que se tratava de Maria.
    _ Não mãe, nós decidimos que não haverá mais Natal e nem humanidade. A coisa ta tão complicada que não adianta gastar mais tempo e espaço para treinar a humanidade. Nós vamos destruir tudo e recomeçar tudo de novo, deste modo, não deturpa as profecias que diziam que haveria um novo mundo.Haverá, mas com um novo homem.
    _ Ah, mas que besteira! Quantas vezes Deus já falou que ai destruir a humanidade e voltou atrás Nessas idas e voltas sempre conseguiu ajudar grandes homens evoluírem. Veja a história! Depois que você veio, vieram homens sábios que ensinaram a humanidade. É certo que houve grandes homens e grandes vitórias da humanidade. Eu garanto que se houvesse mais uma chance a humanidade compreenderia todos os seus erros-falou Maria, que agradou a maioria.
    _ Minha mãe, quantas vezes me amparou. Nas horas mais difíceis da minha vida você estava comigo. O que sugeres em sua atitude maternal, pois, nem o próprio homem, com seu pedido de clemência, não conseguiu dobrar a Justiça Divina-falou Jesus, querendo fechar o grande livro que estava em sua mão.
    _ Ora meu filho sabe que o céu deve ser clemente com suas criaturas. Eu como mãe, esperei por nove meses de gravidez, com dores e náuseas, às vezes cansada, às vezes com medo. No final da gravidez dei a luz. A luz divina que de mim nasceu iluminou o mundo. Se depois do sofrimento veio a sua luz, depois do sofrimento humano virá a luz-disse Maria, me deixando feliz com a demonstração de amor.
    Jesus foi até Deus e lhe cochichou no ouvido. Então vi que sua fisionomia havia mudado, estava mais radiante. Talvez necessitava de um toque feminino para tirar-lhe de sua indecisão. Ali estava Deus novamente cedendo à humanidade uma chance de se livrar do mal eterno.
    Jesus voltou e anunciou que a Justiça Divina havia chegado num acordo. Soaram as trombetas e um dos anjos que me acompanhava, veio e anunciou a todos o veredicto dado por Deus.
    _ Deus, supremo juiz de toda criação resolveu dar mais uma chance para a humanidade-enquanto o anjo falava, as pessoas que estavam nos bancos festejavam de alegria. E o anjo continuou-Haverá mais uma chance para a humanidade. Um dos homens voltará à Terra em espírito, deverá procurar alguém que o incorpore e pelo uso da psicografia dirá tudo o que foi dito aqui em cima. Jesus escolheu um entre os homens para concluir este trabalho-terminou o anjo de pronunciar o veredicto e saiu. Todos se indagavam quem seria o homem. Em meus pensamentos achei que seria “De Laboris Solis” ou Tomé. Foi quando Jesus veio à frente falar.
    _ Chegamos a este veredicto e o homem escolhido para voltar como espírito e psicografar esta historia de salvação foi você-apontou Jesus para mim.
    _ Eu! Porque eu?- indaguei assustado.
    _ Você foi o único ser humano que pediu clemência a Deus. Se queres clemência, volta lá e fale aos homens o que deve falar-terminou Jesus curto e grosso.
    _Eu e minha boca grande. Não podia ter ficado quietinho ali e ouvir o julgamento como os outros panacas que ouviam e não intervia em nada? Agora estava eu incumbido de voltar à Terra e psicografar esta história para algum médium e ainda por cima agüentar o Diabo e Judas me atrapalhando, instigando pessoas acharem estar possuídas por demônios em igrejas evangélicas, onde pregam que espiritismo é coisa do demônio.
    _ Bom, esta é minha história, do início ao que pensava ser o fim. Agora, necessito que vocês aí deste lado acreditem nesta história ou talvez amanhã vocês não estarão mais vivos e eu, dependendo de vossa decisão, terei que agüentar o mau humor do diabo nas regiões infernais.                                                    

sábado, 3 de agosto de 2013

UM ÁLAMO SECO

       
                                       


      UM ÁLAMO SECO


    Nasceu em uma família de posses no interior do estado de São Paulo. Tinham umas terras à beira do Rio Pardo, onde brincavam quando crianças. Seu irmão adorava pescar no barco motorizado, herdado do pai, que havia herdado do avô. Viviam como reis no meio daquela fartura. Disso ela não podia reclamar, pois sempre houve fartura em sua vida.
    Quando criança tinha as melhores roupas, frequentava os melhores clubes e estudava nas melhores escolas, em compensação, dava o troco à sorte, crescia e se tornava uma linda mulher, que fazia dos clubes as passarelas onde ia se exibir. Na escola, as melhores notas sempre eram suas. Ao contrário dela, seu irmão sempre foi medíocre, destruindo o patrimônio que o pobre pai custou para ganhar junto com o avô.
    Um dia, cercada pela vontade de ser modelo ou talvez atriz, ou ainda, os dois ao mesmo tempo, mudou-se para São Paulo, indo morar com uma tia sua, que há muito tempo não via. Chegou em São Paulo aquela mulher deslumbrante, morena, quase um metro e oitenta, lábios carnudos e insinuantes, o par de seios perfeitos, nádegas torneadas perfeitamente. Era o tipo de mulher que os anjos pularam do céu para vir conhecer na Terra.
    Menina esperta, conseguiu o que queria. Tornou-se uma das mulheres mais rica do Brasil, posando com cara de madame ainda com dezoito anos. Acabou se casando com um homem de cinqüenta dizendo que era por amor. Não justificando se o amor era ao velhote ou à sua conta bancária.
    E assim foi, participando de festas e homenagens de pessoas que sequer ouvira falar. Transou com os melhores homens. Melhores no sentido financeiro, não sendo necessariamente melhor no sexo. Este, ela comprava como e quando queria, marcando seus nomes numa agenda, marcada pela corrupção, destruindo os padrões sociais ensinados na antiga cidade do interior.
    Seu irmão escolhera outro rumo. Saiu para o mundo viajando, usando as piores drogas e gastando tudo o que o pai lhe havia deixado. A última vez que foi visto, estava na floresta amazônica, tomando chá de Santo Daime.
    Dele, nunca mais se teve notícias. Alguns dizem que Deus o havia arrebatado, como fez com outros em várias épocas da humanidade. Na concepção daquelas pessoas, o homem se tornara um santo, escolhido por Deus para conhecer as terras além do sistema solar, além das estrelas conhecidas. Naquele ano um cometa passou por ali e muitos diziam que junto com ele havia uma enorme nave espacial com alienígenas deuses, que vêm contactando os humanos desde a sua mais tenra idade. Havia entre seus seguidores várias fotos suas, com roupas brancas e prateadas, o que dava a entender que ele já havia estado com extraterrestres.
    Aqui, sua irmã continuava em sua vida sensual. Continuava uma mulher exuberante, porém, agora era loura de olhos azuis, alguns quilos à mais de silicone nos seios e nas nádegas tornando-a andrógena. Não que parecia meio homem, meio mulher. Andrógina por parecer mais um travesti siliconado, ou, uma paródia de si mesmo.
    O marido morreu, deixando-lhe como única herdeira de toda a fortuna da família. O golpe foi bem dado, na família de apenas dois irmãos um morreu cedo deixando sua parte da fortuna e mais a que ele havia conseguido aumentar. Como era gay, não tinha herdeiros.
    Desta ostentação, ela fazia intermináveis orgias, com intermináveis amigos, aqueles amigos de uma noite e uma manhã.
    Um dia, a menina bonita olhou-se no espelho e se viu envelhecer. Havia rugas que as plásticas não conseguiam disfarçar. Os seus dias mudavam, o seu tempo era mais curto, sua vida era um oscilar de médicos e noites mal dormidas. Seus seios não sustentavam mais o peso da borracha, suas pernas viviam tremendo e doendo por causa das varizes. Realmente a velhice estava chegando. Seu amigos sumiram, foram procurar por novas festas. As suas já não eram tão alegres e não eram tão orgiásticas. Na verdade aqueles corpos podres pelo tempo não excitavam mais ninguém. Aqueles velhos amigos queriam rodear-se de juventude e pagavam alto para estarem rodeados. Os novos amigos queriam apenas seu dinheiro, porém em sua cabeça, estes amigos estavam ali para lhe servir enquanto ela os servia de dinheiro e de bobo da corte, pois era motivo de anedotas entre os amigos mais íntimos de sua vasta fauna de amizades.
    Foi assim sua vida, cheio de amizades falsas, de ilusões e mágoas. Embebidas de perfumes caros, maquiagens fortes, plásticas em todo corpo, lipoaspirações, silicones e doenças. Descobriu um câncer no útero que lhe comia rapidamente, destruindo sua vida de ilusões. Começava agora crer em Deus, coisa que jamais fizera. Porém, era tarde para descobrir que o mundo não era apenas aquela vida cretina cheia de mediocridade. Morreu só, sem entender o que era Deus, sem conhecer o verdadeiro amor por alguém, sem receber amor nem de amigos, nem de parentes. Foi enterrada por primos distantes, que eram os únicos herdeiros de sua fortuna volumosa. Não viam a hora de baixar o caixão na sepultura para contar o dinheiro. Ali estavam seus dois primos e o coveiro. Nem o padre chamaram para dar-lhe a extrema unção.

    Enquanto isso, seu irmão continuava em sua viagem pelo mundo dos deuses, pra além da Ursa Maior.