sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A MORTE DO ALQUIMISTA


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  Pedro era um rapaz curioso. Sempre atrás de descobrimentos da ciência e de assuntos ligados ao ocultismo. Quando conheceu o espanhol Juan Pablo, jamais achou que sua vida mudaria tanto. Conheceu e se fascinou por aquele homem estranho, vestido de roupas escuras que pareciam combinar com sua barba e cabelos negros. Sobrancelhas fechadas e um olhar penetrante. 
  Talvez Pedro teve um certo receio em se aproximar de tal homem. Mas o receio não deixou de notar um anel, que parecia ouro, no indicador do homem. Havia nele um dragão...ou seria um leão. Não saberia dizer. E foi desta forma que Juan Pablo entrou em sua vida.
   _Gostas de joias?
   _Não que eu goste. Me chamou a atenção.
   _Muitos se fascinam por esta bela joia  É muito antiga. Muitos já morreram por ela.
   _Então é muito valiosa?
   _Depende do valor que lhe dão. O ouro é valioso, mas o que ela representa não tem preço, pois, guarda muitos segredos que somente os que sabem o seu uso saberão.
  A noite estava escura e fria, e, Juan Pablo ficou em conversa com o jovem Pedro. Estavam em um pequeno bar do centro da cidade. As prostitutas e os bêbados entravam e saíam. Mas a conversa foi até o Sol raiar. Pedro se impressionou com as histórias contadas pelo estrangeiro. Principalmente coma história de fazer ouro.
   _Mas o senhor consegue transformar coisas em ouro?
   _Este anel foi gerado assim.
   _E como eu poderia aprender esta mágica?
  _Não é mágica. Esta arte se chama Alquimia e é muito antiga. Gostarias mesmo de aprender?
   _Sim, gostaria.
   _Eu poderia te ensinar se trabalhar para mim.
   _O que eu tenho que fazer?
   _Dar-te-ei meu endereço. Estejas lá logo cedo. Abra a porta sem barulho. Encontrarás seis pares de botas. Pode engraxa-las,  deixando-as brilhando. Depois, encontrarás um rolo de fumo no canto esquerdo da sala. Corte um dedo e pique-o. Coloque dentro de um cachimbo que estará próximo à estante com livros. Tire o trigésimo terceiro livro da quarta carreira de cima para baixo e coloque-o encima da mesinha em frente à poltrona. Abra o livro na página sessenta e seis. leia o sexto parágrafo em voz alta. Espere por quinze minutos e abra o açucareiro em sua frente. Esta será sua tarefa neste primeiro dia.
  Pedro foi para sua casa, tentou se lembrar de tudo que Juan Pablo havia lhe dito. Não conseguiu dormir diante desta história esquisita. Mas preparou-se a noite toda para ir ao local bem cedo e fazer tudo o que foi dito.
  Era ainda escuro quando Pedro chegou ao local do endereço. Havia uma casa antiga, porém, conservada e bem limpa. Parecia que os metais brilhavam naquele lugar. Era um brilho que transcendia o normal, aquilo que estava acostumado em seu dia a dia. Pedro subiu uma escada de madeira muito grossa e parou em frente à porta. Viu nela uma inscrição: "El alma, todavia respira". Achou estranho, mas ficou com a frase na cabeça. Que seria aquilo?
  Entrou. Era uma sala muito aconchegante, com uma estante de livros até o teto. Meio escura de fato. Mas as luminárias de cristal davam uma beleza diferente ao local. Procurou com os olhos a mesa. Era uma mesinha, talvez, só para leitura. Observou num canto alguns aparelhos desconhecidos. Para que serviriam? Lembrou-se da sequência. Engraxou as botas, que ficaram muito bem engraxadas. Picou o fumo e colocou no cachimbo. Procurou na listagem o livro e o retirou. Olhou suas páginas até encontrar a sessenta e seis e o parágrafo. Então leu em voz alta:
   
   "O que reluz é ouro,
     O vil metal das almas em agouro,
     Sedentas em sua penúria, à riqueza,
     Perdendo sua alma e sua beleza".
    
   Não entendeu o que leu. Mas abriu o açucareiro. Dentro dele havia uma velha moeda de ouro maciço e um papel escrito.

    "Retire a moeda e vá embora". 

   Retirou a moeda e foi-se. Foi em seu caminho observando tal moeda. Era muito antiga, Talvez, de uma época perdida no tempo. Com medo de alguém ver, guardou rapidamente e foi direto para casa. Não dormiu naquela noite.
  No outro dia chegou no mesmo horário. Abriu a porta e se deparou com outra pessoa dentro da sala. Era Ferdinando, um senhor de meia idade e que havia migrado da Argentina à algum tempo. Os dois se assustaram. Talvez com a surpresa de ver outra pessoa na sala, ou, querendo saber o que o outro estaria fazendo ali.
  Então surgiu um outro homem. Este  vestido de médico, ou talvez, com roupas de laboratório. Estava com uma expressão de quem se assustou com alguma coisa, ou, espanto por ver mais duas pessoas ali. Disse:
  _O que se tem pra fazer está anotado neste caderno de capa preta encima da mesa - saiu sem olhar para trás.
  Pedro resolveu ver o que tinha no livro. Havia um monte de símbolos ilegíveis no início. Depois, a data daquele dia confuso e o nome Ferdinando seguido do de Pedro. 
    Para Ferdinando ele pedia para picar o fumo e levar as cinzas do cachimbo para fora. Enquanto a Pedro, pedia para engraxar as botas.
   Ferdinando foi para fora sem querer deixar Pedro sozinho na sala. Quando saiu, Pedro não titubeou. Correu ao açucareiro e abriu para apanhar outra moeda. Mas não havia nada dentro. Será que o outro já tinha pego sua moeda?
    Ferdinando voltou. Pedro nem esperou.
    _Onde está a moeda?
    _Que moeda?
    _A minha moeda do açucareiro, me devolva!
  Ferdinando correu para a estante abriu um potinho e gritou exasperado.
    _Onde está o anel?
    _Que anel?
    _O anel de ouro que estava aqui?
    _O medico deve ter roubado!
    _Não. Eu cheguei primeiro que ele aqui.
    _Onde estarão então. Será que não está em outro lugar?
    _E as palavras mágicas? Tem que falar as palavras!
    _Verdade. O livro da prateleira.
    Procuraram o livro, mas não estava lá.  Então decidiram procurar pela casa. Olharam todos os lugares. Cozinha, banheiro, quartos, a sala e os livros. Nada.
    _Existe um porão - disse Ferdinando. Deve ter sido escondido lá.
    Desceram ao porão e quase caíram da escada quando viram Juan Pablo estendido no chão com os olhos vidrados e a boca roxa. Não sabiam se chamavam a polícia ou procuravam as relíquias. Pedro notou que o anel não estavas no dedo do morto. Olhou para Ferdinando e percebeu o que seus olhos diziam. Então, procuraram ali também as relíquias. Foi quando acharam um papel escrito por Juan Pablo:

  "Uma pessoa me matará. Ele chegou cedo e engraxou minhas botas. Cortou fumo. Colocou no cachimbo. Encontrou o livro mágico que lhe deu o fruto do seu serviço. Sua ganância fez com que minha vida tirasse, e perdesse assim, o grande segredo da alquimia. O de transformar chumbo em ouro".

    Pedro chegou, e talvez, fez tudo isso e perdeu o segredo.
    Um dia antes Ferdinando fez as mesmas coisas.
  O médico, na realidade, não era médico e nem trabalhava em laboratório, mas colocou o jaleco com medo de ser contaminado pelo que matou o homem. Seu nome era José. Não passava de outro ganancioso.
   _A principio todos são culpados - disse o policial, que chegou logo depois trazendo José de volta. Foi apanhado quando ia saindo da casa.
   O legista deu causa-mortis  por envenenamento. Porém era um veneno raro e muito antigo, usado pelos velhos alquimistas quando necessitavam silenciar algum segredo. muitas vezes, com o suicídio. Será?
  Aquela voz suave e penetrante ficou parada nos ouvidos da atendente de plantão policial:

    "Da velha arte compartilhada com ciganos,
      O homem caiu em seu maior engano,
      O amor por aquilo que se vai,
      Faz o homem voltar para o mesmo lugar,
      A pedra transformada precipita  e cai,
      Voltando ao mundo como algo vulgar,
      E nesta manhã morrerei por mão em ânsia,
      Vítima dos erros e dos olhos da ganância".
                                     
                                        (Juan Pablo de Leon)

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