sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O MENDIGO E O RELIGIOSO





Wanderleison veio do Sergipe para São Paulo. Não é um estado muito conhecido pelos estados mais ricos do Brasil. Talvez por isso, tenha vindo, assim como muitos, tentar uma vida melhor na grande capital paulista. Mas São Paulo não é uma cidade de vida fácil. Percebeu isso logo que chegou. A malandragem levou tudo o que tinha. Ainda que tudo representasse quase nada.
Só com a roupa do corpo, Wanderleison aprendeu viver na rua com outros que ali também viviam. Mas ao contrário da maioria, não usava nenhuma droga, nem álcool, pra se esquentar do frio. Catava lixo para reciclagem e os lia. Lia tudo que pegava. No início, não entendia quase nada por causa de sua pouca escolaridade. Mas seu interesse era maior. Quando tinha alguma dúvida perguntava para as pessoas que encontrava em seu dia a dia. Eram professores, advogados, policiais, assistentes sociais, padres e pastores. Todos os tipos de pessoas.
Wanderleison foi se tornando uma enciclopédia ambulante, jogada no meio do lixo. Quanto mais envelhecia mais sabedoria adquiria.
Então, numa bela tarde, estava descansando como sempre fazia quando passava por aquele trecho da cidade. Aos pés da velha igreja do Brás, viu um senhor se aproximando. este senhor estava vestido como um clérigo católico. Olhou bem dentro dos seus olhos miúdos e castigados pelo tempo. Tempo de vida e tempo irregular da cidade grande, onde hora faz frio, depois esquenta, então chove sua chuva ácida e torna esquentar, com a fumaça de nuvens poluídas.
Mas, lhe olhou nos olhos e o abençoou. Talvez não esperasse a mesma atitude do mendigo. De fato, Wanderleison também o abençoou.
Então a santidade voltou.
_Que atitude nobre meu filho.
_Talvez necessite mais da benção divina que eu.
_Talvez tenha razão. Sou um pecador.
_És pecador e sabes a razão. Tornando-te ainda mais pecador que eu.
_Não sabes o peso que trago na alma.
_Talvez eu saiba. Embora não admita como uma desculpa.
_Mas não é uma desculpa. Porém, existem coisas que não se pode mudar, mesmo querendo.
_Ah, disso eu sei muito bem meu senhor.
_Sabes das forças que movimentam o mundo. Do qual somos apenas peças.
_Verdade. Tu, o bispo, próximo ao rei. Eu, apenas a peça que se sacrifica para o bem estar do reinado. Sou um peão. Aliás, sou menos que o peão. Sou o tabuleiro, onde todos pisam com seus valores. Pisam e nem percebem o quanto importante é o tabuleiro.
_Pois é. Sem tabuleiro não há jogo.
_Mas haverá um dia em que não haverá mais jogo. Não haverá mais tabuleiro.
_E neste dia Deus estará conosco.
_Não. Deus estará com uma outra humanidade. Vocês estarão no inferno, amargando suas culpas, por falta de comprometimento com os próprios votos e alianças. Neste dia, não haverá fome, e o mundo será outro. Também não estarei mais aqui. Já não sou inocente. Sei agora que aqui jamais transita um inocente.
_Mas os inocentes virão.
_Virão e não estaremos mais aqui para lhes manchar com nossa nódoa imunda. 
_Mas não sou o único. Minha religião não é a única errada.
_É qual é a certa, não é? Mas devemos manter nosso papel hipócrita. Vista suas vestes, suas regalias, suas riquezas, seus altos postos, seus templos, seus ornamentos. Enquanto aqui, visto-me de meus retalhos, minhas sobras de alimentos, minha alma de pobreza, meu papelão de dormir na rua, meu templo interno, que é minha própria cabeça. E que eu possa abrir o jornal sem ver tantas mortes, tantas doenças, tanta fome pelo mundo. Que eu possa, pelo menos em meu sono, ser abençoado.
O sacerdote abaixou os olhos e caminhou devagar. Olhou triste quando outro sacerdote veio ao seu encontro. E mais, milhares de fotógrafos, emissoras de televisão, chefes políticos, seguranças, missionários, religiosos, manifestantes em favor de alguma causa, ONGs, mulheres beatas, outras nem tanto.
Enquanto isso, Wanderleison virou para o lado. Puxou o papelão sobre o corpo, fechou os olhos. Sentiu uma lambida na boca. Abriu os olhos. Era o Pipo, seu cãozinho vira-lata, amigo inseparável. Puxou-lhe para perto. Fechou novamente os olhos. Sorriu e pensou, "pelo menos posso dormir".



Conheci um senhor que realmente viveu desta forma. Foi catando materiais recicláveis que criou três filhos. 
Autodidata, aprender muito com livros tirados do lixo, inclusive em outras línguas, traduzindo com dicionários. 
Espero hoje, onde estiver, que esteja muito bem.

Elder  Prior