A CIDADE DE SEKHEM


                                                 A CIDADE DE SEKHEM


    Estava eu sentado em meu confortável trono, depois de grandes batalhas com monstros inimagináveis, pensando que já havia visto tudo e vencido todos os obstáculos que a vida nos coloca. Foi quando chegou o grande Mahaviru e me disse:
    _ O que espera sentado, jamais verá o verdadeiro horizonte.
    _ O que queres dizer, meu senhor, acaso não estou em meu direito, descansando depois de uma longa jornada cheia de batalhas e intrigas?- falei indignado e inconformado de ser molestado em meu conforto.
    _ Você acha que os muros desta cidade podem abrigar-te de seus inimigos? Uma torre, um forte, uma muralha, jamais vencerão os inimigos que estão fora do cerco. Aqui você está limitado por suas muralhas, e isto lhe dá conforto. Mas seus inimigos estão a sua volta esperando apenas um deslize para ataca-lo. Acabarão suas provisões, acabarão com o tempo seus mantimentos, suas riquezas e tesouros e nada terá valor, porque você não poderá sair de suas muralhas. Você teme seus inimigos, você teme o futuro preferindo viver no passado, você teme sair do seu confortável trono e olhar o verdadeiro horizonte que se esconde atrás das muralhas de Sekhem. –falou o mestre com a doçura de sua voz.
    _ Como um simples mortal como eu pode vencer inimigos tão fortes? Como o que tem uma vida breve pode vencer os deuses que o rodeiam? Não seria suicídio tentar combate-los em campo aberto? –falei, com medo da resposta.
    _ Estes deuses inimigos se alimentam de suas fraquezas, pilham seus desejos e o escravizam, porque somente isto sabem fazer. Mas a partir do momento que você abrir os portões e combate-los frente a frente conseguirá ver a luz do sol poente se perdendo no horizonte. Então terá no visto a beleza da luz se mesclando com a escuridão, deixando que a escuridão sugue sua luz. E quando a escuridão pensar já ter vencido a luz, eis que ela volta com toda sua força para destruir a escuridão. Assim é a vida. Deixe que os deuses inimigos te rodeiem e quando pensarem que te venceram, não precisará mais das muralhas, das torres e dos abrigos, porque se tornou luz e sua luz é mais forte que as velhas muralhas e torres que construiu para esconder-se e viver confortável e longe das batalhas.
    Criei então forças e fui destemido para trancas das portas e parei. Olhei para trás o vasto castelo que eu tinha, os amigos que havia conquistado pelo que eu tinha. Olhei para o mestre que me observava de longe, não querendo interferir na minha decisão. Apenas disse:
    _ Onde estão todos agora?
    Olhei para os lados, não havia ninguém comigo. Ninguém me acompanhava. Olhei fixamente para o mestre, que tinha um brilho suave rodeando seu corpo. Nada do que eu vivia estava ali e a decisão foi abrir o ferrolho. Abri de uma vez. Vi então o horizonte pela primeira vez. Era lindo, fulgurante, uma coisa que jamais eu vira até então.
    _ É muito lindo meu mestre! Podemos ir até lá?
    _ Não. O horizonte não tem fim. Toda vez que nos aproximamos vemos um novo horizonte que ainda não conhecíamos. Este é o intuito de viver. É descobrir novos horizontes saindo do marasmo do dia a dia. Descobrir que cada vez que acreditamos saber de tudo o que devíamos saber, existe atrás deste tudo um universo escondido. 

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