LIBERTANDO-SE DA PRISÃO






                                     Libertando-se da Prisão


    Já estava há muito tempo por ali, e as coisas pareciam que não mudavam mais. A rotina havia tomado conta da minha vida. A prisão se tornou meu lar e ali, eu comia, bebia e tinha meu lazer. As coisas que me davam mais prazer eram as que mais faziam parte da rotina. E meu dia-a-dia passava, um após o outro, e outro, e outro ...
    Então percebi que no meio daquela rotina, apesar de eu estar fazendo sempre as mesmas coisas, estas, nunca eram iguais, já que o tempo impiedoso se passava e me enganava com seus ciclos e rotinas diárias. Vi pessoas surgirem e sumirem, vi nascerem e morrerem, felizes e tristes, ricos e pobres.  Alguns satisfeitos com a rotina, outros não. Havia alguns que procuravam um meio de fugir dali, de quebrar as correntes dos grandes portões e fugir daquele lugar.
    Porque alguns queriam fugir? O que eles descobriram eu não conseguia ver?
    E andando um dia por perto do portão da prisão, sem querer parei observando um rapaz que estava em frente a o portão. Disse algumas palavras que não consegui entender e passou pelo portão como se ele não estivesse ali. Desapareceu em minha frente sem que eu soubesse para onde ele havia ido.
    Como ele tinha feito aquilo? Como conseguiu fugir dali? Qual era o segredo  por trás do portão? Esta era a dúvida que agora me acompanhava. Alguém devia saber como fazer para passar por aquele portão.
    Fiquei muito tempo observando aquela porta, procurando nela algum trinco, alguma forma de abri-la, alguma palavra mágica inscrita no portão. Mas minha luta foi em vão.
    Observei várias vezes que, de vez em quando, outra pessoa chegava ao portão, falava as palavras mágicas e atravessavam. Era isto! O que eu devia saber eram as palavras mágicas que davam acesso à liberdade! Tudo o que eu devia fazer era descobrir o que aquelas pessoas diziam em frente ao portão. Fiquei observando um longo tempo as pessoas que ali chegavam e falavam as palavras mágicas. Vi que muitos chegavam e falavam, mas nada acontecia. Talvez não soubessem as palavras mágicas e queriam tentar outras palavras. Fui chegando mais próximo, e mais próximo, até que não agüentei e chamei por um rapaz que estava ali.
    _Oi! O que você quer aí, em frente a este portão trancado?
    _Estou me preparando para atravessá-la.
    _Como você faz isto?
    _Não é o como, e sim, porque razão. Já não vejo razão em estar preso e quero sair, conhecer o que tem atrás destas portas.
    _Eu também não quero mais estar aqui. Quais são as palavras que eu devo falar para abrir o portão?
    _As palavras estão dentro do seu coração, somente dentro dele você encontrará as chaves da travessia. Adeus!
   Falando isso o rapaz chegou bem próximo à porta e murmurou as palavras mágicas. Murmurou tão baixo que não pude ouvir e enquanto ele atravessava corri e tentei passar também, mas dei com a cara no portão e acabei quebrando o nariz. Com a dor amaldiçoei, xinguei e sai pisando duro. Como se isso adiantasse alguma coisa, pois a porta continuava lá, intacta.
   Fiquei por muito tempo pesquisando, olhando o portão e as pessoas que ali chegavam. Via que alguns passavam e outros, como eu, metiam a cara no portão. Já estava cansado, pensei em tudo, mas não achei a solução e nem a palavra mágica. Fui até o portão e olhei para cima, depois para baixo e falei em voz baixa:
   _Oh! Deus misericordioso. Aqui estou. Exausto de minha busca por leis e palavras mágicas. Nada encontrei, nada aprendi. Gostaria de atravessar esta porta, mas não sou digno. Peço desculpas, porque falhei.
    Falando deste modo pus a mão no portão para me despedir e desistir da busca. Mas o portão me tragou para dentro de si. Fiquei desesperado e assustado. Tentei escapar, mas o portão me sugava e me arrastava para dentro dele, senti uma leve tontura e fechei os olhos. 
    Quando abri, me vi fora dos muros da prisão. Eu havia vencido a prisão. Enfim liberdade!

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