NO MEIO DO DESERTO, O OCEANO





 NO MEIO DO DESERTO, O OCEANO.

    O fato de não ter luz suficiente me deixou intrigado. Poxa, fazia tanto tempo que andava por caminhos inóspitos e não havia alcançado uma forma de demonstrar a luz e o amor que me habitava. O que eu estava fazendo de errado? O que em mim nutria a escuridão?
    Decidi partir para mais uma busca. Sem saber o que buscar, fui à direção ao deserto que se abria em minha frente. Lembrei-me de Moisés, abrindo o mar com seu cajado. Teve luz para abrir o mar, mas não pode entrar na Terra Prometida. E ali estava eu, com luz necessária para cruzar o deserto por quarenta dias, mas jamais conseguiria vencer a escuridão que habitava em mim.
    Absorto em meus pensamentos avistei, ao longe, uma cidadezinha cravada na imensidão de areia. Quanto mais eu tentava alcançar a cidade, menor ela ficava e eu parecia estar ficando maior a cada passo. Até que tropecei num dos seus muros. A cidade era realmente minúscula. Ajoelhei-me para ver se conseguia encontrar alguém, mas estava muito escuro e vi apenas pequeninas luzes em pequenos apartamentos. Decidi então tirar uma soneca e esperar o despertar do dia.
    No dia seguinte acordei com o alvoroço da cidadela e o espanto com o gigante. Foi quando me dei conta que eu era a ameaça.
    _Não, eu não sou um monstro!- repliquei bem alto.
    Mas minha voz os amedrontou ainda mais. E os sacerdotes faziam exorcismos para afugentarem o demônio. Isto é, eu. 
    Os olhei com compaixão, tentando falar baixo e calmamente para que pudessem me ouvir.
    _Como você surgiu aqui? – falou um sujeitinho gordo, que pelos trajes parecia ser o prefeito ou o rei do local.
    _Vim pelo deserto - apontei para o deserto. Mas ele já não existia. Em seu lugar estava um oceano imenso.
    _Aqui não existe deserto. Deves ser um demônio de outro mundo – falou novamente o sujeitinho.
    Aquilo havia me deixado confuso. Eu mesmo já não sabia o que tinha acontecido. Será que eu tinha aberto o mar, como fez Moisés? Mas, ali não era nenhuma Terra Prometida.
    _Não! Não sou demônio – voltei a si. Estou perdido aqui. Devo ter vindo pelo mar e nem me dado conta.
    _Não está aqui para nos devorar?
    _Não. Estou viajando a procura do amor que perdi.
    _Alguma amante do passado?
    _Não... Não se trata desse amor. É amor divino, espiritual.
    _Se você perdeu... Foi amado no passado.
    _É verdade. Mas, e vocês? Porque são tão pequeninos? O que aconteceu com vocês?
    _Não somos pequenos. Você que é gigante. Temos milhões de anos e sempre fomos deste tamanho.
    _Aqui você é do tamanho que acha que é. Quanto maior o seu ego mais insignificante nos achará. Um homem só encontra o amor perdido quando diminui de tamanho – falou um senhor com uma longa barba branca. Reconheci seu semblante, mas não quis dizer nada. Também, não era necessário.
    _Como posso diminuir de tamanho?
    _Retirando de dentro de si tudo aquilo que não tem valor. Não foi falado que é mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha do que um rico entrar no céu? Pois bem, aqui tu és o Guliver em Liliput. Procure a agulha e tente entrar pelo buraco.
    _Mas como retirar o que não tem valor? O que devo fazer para que isso aconteça?
    _A vela quando é acesa vai queimando o pavio e a cera. Estes, vão sumindo à medida que o fogo avança. O corpo da vela é seu ego e o pavio é o que a luz queima, transformando em fonte de mais luz. Não se alcança o amor se não produzi-lo, abdicando de si próprio. Este é o caminho. Amor incondicional. O pavio se transforma em linha que pode passar tranquilamente pelo buraco da agulha. Sua tarefa aqui é auxiliar os pequeninos para que possam enfrentar as atrocidades do dia a dia. Esteja em Deus. Seja um deus e faça com que a luz brilhe e se torne Sol.
    Foi assim que fiquei em Liliput. Até quando? Quem sabe quando a linha vai passar pela agulha?
         

Nenhum comentário:

Postar um comentário