NA TERRA ÁRIDA E REVOLTOSA DE SEKHEM


           NA TERRA ÁRIDA E REVOLTOSA DE SEKHEM 

      Depois de verificar que o horizonte era infinito, pois, quanto mais eu andava mais longe parecia que ficava o seu limite. As paisagens iam mudando e percebi que as florestas e flores de perto de Sekhem já não estavam ali. Havia agora um vasto deserto de terra vermelha, parecia um mar vermelho quando o sol brilhava e mostrava a verdadeira paisagem, árida e sem movimento de viva alma.
     Com o escurecer percebi mais ao fundo, do lado sul, algumas luzes que pareciam estrelas. Chegando mais perto descobri que as luzes eram de uma cidade. Pelo menos era o que parecia ainda. Chegando ainda mais perto, vi que a cidade era formada de um só bloco. Era um enorme prédio quadrado e com muitas janelas, onde dava para ver o movimento de pessoas transitando pra lá e pra cá.
     A estrada que eu estava terminava bem em frente à entrada da cidade. Lá, havia um grande luminoso estilo “Las Vegas” escrito: “Bem vindo, agradecemos sua preferência”. Olhei espantado aquele estranho luminoso e percebi que as luzes não eram provindas de lâmpadas, eram olhos humanos que abriam e fechavam jogando raios de fogo para fora, intensificando a morbidez do lugar.
     Olhei para a construção e senti que o prédio parecia mais um presídio, um grande presídio pintado de vermelho sangue. Um imóvel antigo, daqueles que há muito tempo não se dá manutenção.
     Olhando com mais atenção, vi que a pintura vermelha era realmente sangue, um sangue escurecido pelo tempo e pela falta de limpeza.
     _É isto mesmo! É sangue! Todos os cidadãos desta cidade são obrigados a doar seu sangue para manter as paredes sempre vermelhas. E aqueles que são penalizados por penas ainda maiores são obrigados a doarem seus órgãos. Os que doaram os olhos para o letreiro acima não queriam enxergar a verdade de sua realidade. Geralmente, os moradores deste lugar não acreditam que estão num presídio e sempre esquecem que existe esta porta a qual tomo conta. Sou o guardião desta porta. Os que querem entrar entram. Os que querem sair, saem - finalizou um homem enorme, vestido com uma armadura vermelho-bronze onde reluzia uma espada na bainha, mostrando pouco uso ou falta do que fazer com ela.
     Percebi que os que entravam não queriam sair e os que estavam de fora sequer pensavam em entrar.
     _Não existe fuga por outros lugares? Só existe saída pela porta? Talvez temam sua notoriedade - perguntei ao guardião.
     _Somente fogem os que me vencem numa batalha com a espada - falou o guardião.
     _Mas sua espada parece intacta, nunca foi usada.
     _Esta aqui nunca foi usada. Esta é para lutar com você - respondeu o guardião abrindo a porta do presídio.
     _O que te faz pensar que eu quero entrar?
     _Todo aquele que quer ver além do horizonte deve tentar fugir da prisão e me vencer na batalha. Se você não me vencer e não praticar a fuga da prisão, jamais verá o horizonte.
     _E se eu me recusar entrar?
     _Poderá voltar para Sekhem e apodrecer em seu luxuoso palácio. Até o dia em que deverá ser questionado sobre o que você aprendeu na vida. Então dirá: “Não aprendi nada, somente o sono em meu palácio eu conheci. Fui até a prisão, mas voltei ao palácio, desistindo de ver o horizonte”.
     Pensei um pouco e resolvi entrar na prisão. Quando vacilei e pensei em voltar, as portas já estavam fechadas e agora vivia eu dentro de um presídio, onde a fuga parecia impossível. Foi quando uma voz me disse:
     _A prisão é onde está seu coração! O seu coração é a manifestação do amor! Não o torne uma prisão!

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